Lobão joga a toalha

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Publicada em 18/11/2014 às 09:56:00

* Lelê Teles

Pelas barbas de Bin Laden, o nosso Lobão Elétrico quase entrou em curto ao se aproximar do vão do Masp neste sábado. Pelo Twitter, sua trincheira virtual, o caricato e rabugento ativista derrama um balde de água fria na própria cabeça.
Esse troço tá na moda.
"Cilada infame, tuitou Lobão com revolta e pesar, eu chego no Masp e a primeira coisa que vejo é um mega caminhão com um cartaz com os dizeres Intervenção Militar Já. Palhaçada".
Desabafou, uivando. Qualquer filho de mulher com uma imaginação criativa conseguiria ver o músico no cimo de um penhasco, só a silhueta; ao fundo, uma enorme lua redonda e alva, o pescoço pra cima, a barba encanecida escorrendo pelo queixo e o uivo que saía de seu teclado.
"Tô fora, não sou moleque, nem o povo brasileiro. Gente não compactuem com essa imoralidade".
Ele prossegue seu tuitriste lamento: "um monte de gente indo embora desapontadíssima com essa invasão de cretinos de extrema direita".
Pausa pra fumar um cigarrinho de palha.

Cretinos de extrema direita? Com mil diabos, senhoras e senhores, o que Lobão esperava encontrar depois daquela palhaçada no Largo da Batata? Aliás, formulemos isso da maneira correta, o que mais ele poderia encontrar naquele ato senão um número ainda maior de midiotas encorajados pelos holofotes?
As reivindicações golpistas dessa turba, vomitadas no ato anterior, que atentavam debochadamente contra a constituição, não foram condenadas, foram na verdade veladamente estimuladas pelo nosso agora solitário Lobo da Estepe.

Bolsonaro esteve naquele fatídico ato, arma na cinta, representando as viúvas dos generais. Lobão também lá esteve, por que não condenou já ali, microfone em punho, essa catarse epilética.
Agora é tarde. Aqueles elegantes coxinhas de catupiri e ossobuco se envenenaram com uma pimenta fortíssima, derramada por Aécio sem parcimônia, não nos esqueçamos disso. Era seguindo orientações do general que estavam ali todos eles, com o pino da grana solta, sangue nos olhos.
A narrativa de ódio, dedo na cara e prepotência perpetradas pelo senador derrotado, o auto intitulado general, contaminou e encorajou uma tropa delirante de midiotas, desses que pedem intervenção ou impeachment, qualquer coisa que anule o resultado das urnas e faça valer a suas vontades.
Pouca gente havia no ato, sejamos francos (150 cabeças no Rio e em BH, 400 em Bsb). Mas uma gente barulhenta e holofótica. Uns a desfilar e fazer selfies - lembremos que essa gente não costuma caminhar pelas ruas - outros dando dedo e xingando palavrões, muitos espumavam contra o PT, os mais valentes queriam vestir farda.

Lobão, ao perceber tardiamente que colava sua imagem a um movimento ridículo, caricatural e bufão, resolveu tirar o corpo fora.
Não sem antes admitir que a causa tava perdida.
"Gente, nós estávamos cara a cara com o gol e esses babacas nos aprontam essa. Indo pra casa".
Foi uma série de tuites seguidos. Um olhar mais arguto constataria que esse ritmo frenético e ofegante de tuitadas demonstrava uma necessidade imperativa e inadiável de se livrar de uma estado de profunda angústia e decepção.
Lobão havia saído dos escombros do castelo que ele mesmo fez cair sobre si e alcançou um certo protagonismo midiático ao se insurgir contra Dilma.
Animado, chamou pra si a responsa, convocou a massa às ruas, mas lá chegando foi tomado por súbita estupefação.
A ficha dele caiu.
Uma hora cai.

E assim, triste e tuitante, Lobão volta pra casa enrolado na bandeira do Brasil, nem ficou pra cantar o hino com a moçada. Caminha cabisbaixo, a barba roçando o peito, os óculos embaçados, o rabo felpudo entre as pernas, com vergonha de encontrar algum comediante pelo caminho.
De roqueiro rebelde, o artista se converteu em líder dos midiotas, herói dos cretinos reacionários que agora condena, mas que outrora lhes dava ração na boca, alimentando a massa cheirosa com seu destempero, sua irresponsabilidade histórica, seu pretenso saber e seu ódio estupidificante.
Escritor, Lobão deverá se dedicar agora a escrever O Manifesto do Nada na Terra do Nunca II, o enredo tá pronto. Ególatra, ele é o protagonista.
O nosso Lobãoquixote, cavaleiro de triste figura.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles é jornalista e roteirista