Crianças inteligentes

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Publicada em 20/11/2014 às 09:29:00

*Ary Moreira Lisboa

ESOPO, o grego, foi o primeiro homem a dar fala aos animais. Até então os animais eram mudos, como ainda continuam. Os romanos, invejosos, difundiram o nome de Fedro, que tempos mais tarde os franceses legaram a Jean de La Fontaine, avô dos animais. O Brasil, como não poderia deixar de ser, sempre atrasado em relação ao resto do mundo, chamou Ziraldo, com sua genialidade para criar a Revista do Pererê, onde alguns animais, todos nativos da floresta brasileira, viviam histórias interessantes. Numa demonstração do marasmo em que o Brasil vivia, quando da criação de seus personagens, o representante dos Correios era um jabuti, que é muito lento, com poucos movimentos. Naquela época havia um escritor chamado Pedro Bloch, irmão de Adolfo Bloch, fundador da revista Manchete e da TV Manchete. Eram armênios, quando a Armênia ainda pertencia ao bloco soviético. Pedro Bloch era médico especialista em atendimento a crianças e escreveu diversos livros sobre as tiradas delas, sob o título Criança Diz Cada Coisa. Ficou famoso com o livro As Mãos de Eurídice, um monólogo denso, que foi representado em muitos paises, por mais de 15.000 vezes por um ator brasileiro chamado Rodolfo Mayer e o espanhol Enrique Guitart, no papel principal de Gumercindo Tavares, como protagonista da peça. Dr. Pedro Bloch colecionou perolas dos pequenos, narradas por seus pais. Nas falas de Esopo, conta-se que correu o boato na floresta de que o gavião estava devorando todos os filhotes que encontrasse. A coruja, então, muito ciosa de ser mãe zelosa e cuidadosa de seus rebentos, como todas as mães, arvorou-se de coragem e foi até a casa do gavião para implorar pela segurança de seus filhotes. O gavião prometeu que não os molestaria, porém havia um contratempo, ele, gavião, não conhecia os filhos da coruja e pediu que os descrevesse. Foi então que ela retrucou, é fácil, eles são os mais bonitos da floresta. A coruja retirou-se segura de que nada aconteceria aos seus filhos, pois os mesmos estavam protegidos pela promessa do gavião em preservá-los. A surpresa lhe foi reservada ao regressar ao seu lar e encontrá-lo desfeito, com os restos de seus corpos espalhados por toda parte. Revoltada procurou o gavião para cobrar dele a falta de cumprimento da promessa. Surpreso o gavião disse que nada tinha feito aos seus filhos. Como a coruja lhe havia assegurado que os filhotes eram os mais bonitos da floresta, não os encontrando comeu os mais feios que encontrou. Eram justamente os filhos da coruja.  Assim como as corujas somos todos nós em relação aos nossos filhos: são os mais bonitos, inteligentes, educados. Muitas vezes em meu escritório recebi a visita de mães aflitas por terem seus filhos presos pela policia. Indagadas qual a causa da prisão, todas tergiversavam dizendo que não estavam fazendo nada, pois apenas viram um carro aberto com alguns objetos e acharam por bem levá-los. Para elas a prisão foi um ato de arbitrariedade. Coruja é assim mesmo, protege os filhos mesmo ante as mais evidências de prática de atos ilícitos. Tenho cinco filhos, bem mais lindos e inteligentes que os filhos da coruja acima descrita. Quem não tiver um filho perfeito, educado, fino, estudioso, por favor, cartas para a Redação com endereço e, se possível, com foto. Que o diga o Dr. Fortunato com seus dois pequenos gênios, ou os filhos de Evendro Andrade, um dos quais no Tribunal de Justiça de Sergipe, outro perito em Física Nuclear, com sérias e verdadeiras pretensõs de desbancar Max Planck, e convencer os homens de Estocolmo a dar-lhe um dos prêmios da Academia Nobel, para somente assim elevar o Brasil ao time dos famosos por ela consagrados, inclusive o pequeno e desconhecido Timor Leste. Não tenho por que reclamar, pois meu neto, antes de concluir o curso de direito, já logrou ser aprovado no famigerado vestibular da OAB, apelidado de Exame. Felizes somos nós por Esopo, Fedro, La Fontaine e Ziraldo não terem criado gaviões comedores de beleza e inteligência. Ainda bem! Feliz sou eu que tive um neto que, em Alcobaça, no dia 06 de setembro de 1997, escreveu o seguinte poema, quando era acalentado pela avó, para dormir: "O Arco-Íris. O Arco-Íris mexe como o vento/E apaga com o apagador/É todo colorido/E parece feito com lápis de cor/Aparece no céu junto com o sol./É uma grande emoção!/O Arco-Íris é tão lindo!/E vem com azul/Com verde e com laranja/E com todas as cores". Janjão - João Carlos Sanches Lisboa Silva. Aos cinco anos. Por não acreditar que fosse da lavra dele consultei sua professora que disse nada saber sobre o assunto. O poema está transcrito no Cartório de Títulos e Documentos de Teixeira de Freitas, no L.B-1, sob o nº. 778. Quem duvidar que procure Sérgio Mascarenhas. Pena que Dr. Pedro Bloch não conheceu JANJÃO nem meus filhos.  

*Ary Moreira Lisboa é advogado e escritor