Sem nomes, sem renovação

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Detalhe de xilogravura de Lindete Amorim
Detalhe de xilogravura de Lindete Amorim

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Publicada em 23/11/2014 às 00:02:00

Logo após a sua reeleição, o governador Jackson Barreto fez uma conclamação pela renovação na política sergipana e anunciou que não disputaria mais novas eleições. Com 70 anos, JB é o mais novo das lideranças de sua geração, na qual se incluem o prefeito João Alves Filho, 71, o ex-governador Albano Franco, 72, e os senadores Antonio Carlos Valadares, 71, e Maria do Carmo Alves, 72.
A proposta de renovação não é fácil, porque os velhos não querem largar o filé, e os chamados 'novo' são lideranças, frágeis, sem discurso e /ou sem voto. Nestas eleições, duas dessas lideranças novas saíram extremamente chamuscadas: o senador Eduardo Amorim (PSC) e o deputado federal Rogério Carvalho (PT).

Eduardo liderava um grupo de políticos velhos, fez uma campanha para governador ao modo antigo, comprando lideranças, abusando do poderio econômico e do controle dos meios de comunicação, prometendo cargos e ameaçando os adversários de retaliação, inclusive jornalistas e funcionários públicos destacados. Perdeu a eleição em primeiro turno para Jackson com uma diferença de mais de 120 mil votos, está vendo o seu grupo político diminuir drasticamente e continua sendo subalterno do irmão Edivan, que na semana passada voltou aos microfones de suas emissoras de rádio para dizer pérolas como "Eduardo foi escolhido pelo povo para liderar a oposição".

Desde a morte do governador Marcelo Déda, Rogério Carvalho se revelou um verdadeiro trator dentro do PT. Depois de uma dura batalha interna, ganhou no voto o comando do partido, propôs a reconciliação interna com os adversários e se transformou em um candidato a senador numa difícil disputa com a senadora reeleita Maria do Carmo. Saiu dos 10% no início da campanha para o empate técnico no dia da eleição, enfrentando milionários como Albano e a máquina administrativa da Prefeitura de Aracaju, que praticou o clientelismo aberto, com as bênçãos da Justiça Eleitoral. Surpreendeu, mas perdeu e viu o PT reduzir suas representações na Câmara Federal e Assembleia Legislativa. Terá que ter muita cabeça fresca para recolocar o partido no prumo, mesmo que consiga um cargo de destaque no governo federal.

Outras esperanças de renovação enfrentam problemas graves: o deputado federal Valadares Filho (PSB) obteve a reeleição, mas a pífia votação na capital praticamente impede o sonho de voltar a disputar a Prefeitura de Aracaju.
O deputado federal reeleito Laércio Oliveira (SDD) tem uma limitação natural por ser representante direto do capital - e faz questão de assumir isso - tanto que impôs de forma humilhante a sua vontade na eleição para a presidência da Federação do Comércio.

O deputado federal André Moura (PSC), que poderia se apresentar como contraponto ao grupo de Jackson, enfrenta problemas judiciais sérios por improbidade administrativa, não sabe, sequer, se poderá continuar na Câmara. Caso o TSE confirme a sua cassação estará inelegível pelos próximos oito anos.
O deputado federal Márcio Macêdo (PT) não obteve a reeleição, o que praticamente exclui qualquer possibilidade de voos mais altos, porque também já havia perdido a disputa interna no PT para Rogério.
Outro deputado federal, Mendonça Prado (DEM), depende da confirmação de sua reeleição ao julgamento de André Moura pelo TSE. Se o colega for mesmo cassado ele terá novo mandato na Câmara Federal, mas a briga com os sogros João Alves Filho e Maria do Carmo impede maiores pretensões, mesmo que consiga autorização para ingressar no PMDB do governador Jackson Barreto. Não inspira confiança para nenhum dos lados e nunca deixará de ser o genro ingrato.

O ex-prefeito Edvaldo Nogueira (PCdoB), além de ter entregue de bandeja a prefeitura de Aracaju para João Alves Filho, não conseguiu se eleger deputado federal e acabou com uma votação pífia para quem sonha em se transformar numa liderança.
O nome de Eliane Aquino, viúva de Déda, sempre aparece como uma esperança de votos para a base governista. No entanto, enfrenta resistências internas no PT por sua postura crítica contra Rogério e a deputada estadual reeleita Ana Lúcia, e não parece ainda saber o que quer da vida, às vésperas do primeiro ano da morte do marido. Teve papel importante nas vitórias de Jackson e da presidente Dilma Rousseff em Sergipe. Além disso, segue a dúvida:  vai continuar em Sergipe ou volta para Brasília onde morava antes do casamento com Déda?

Adelson Barreto (PTB), o deputado federal mais votado, tem uma ação política extremamente individualista e não desperta confiança aos líderes. Só teria apoio para uma empreitada majoritária num caso de desespero e não costuma correr riscos.
O resultado das urnas mostra que ainda não surgiu em Sergipe um nome competitivo para liderar um projeto político para suceder Albano, Valadares, João, Déda  e Jackson na política e, consequentemente, ser o novo líder de um novo projeto, seja da oposição ou da situação.

Abram o olho
A ação do Ministério Público Federal que pede a demolição de 65 bares construídos em áreas de preservação da Rodovia Sarney e Orlinha da Atalaia deve ser vista com muita seriedade por Jackson e João Alves. Ação semelhante em Salvador acabou com todos os bares existentes na orla da capital baiana a partir de Itapuã.
Desde 2009 o MPF tenta fazer a adequação dos bares e restaurantes, mas autoridades estaduais e municipais não levam muito a sério a fiscalização. Se não agirem agora exigindo o cumprimento das normas, a demolição pode se tornar inevitável.

Um cara de pau

Depois que conseguiu garantir a eleição do Pastor Jones para deputado federal e Jairo de Glória para a Assembleia Legislativa, o prefeito de Canindé do São Francisco, Heleno Silva, descobriu que o município enfrenta uma grave crise financeira. Na semana passada anunciou que não pretende disputar a reeleição porque "ser prefeito dá muito trabalho".
Canindé do São Francisco continua sendo o município com maior arrecadação proporcional do Estado, mas está deixando de ser um paraíso para políticos aventureiros que só pensavam na gorda receita proveniente da hidrelétrica de Xingó.
Na gestão de Heleno, os indicadores sociais de Canindé voltaram a cair e agora não consegue agradar nem mesmo os políticos que estão ao seu lado.

Pacote sai esta semana
O governador Jackson Barreto deve anunciar na quinta-feira o pacote com redução de gastos para concluir o governo dentro dos limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. O secretário da Fazenda, Jeferson Passos, diz que o governo precisa cortar R$ 30 milhões em despesas por mês.
Isso passa por cortes com cargos em comissão, despesas com custeio e aperto fiscal. As medidas são necessárias para evitar a perda de financiamentos para a manutenção de obras e projetos já em andamentos.
Jackson também está sendo aconselhado a encaminhar, ainda este ano, o projeto de reforma administrativa do Estado, para começar o novo governo já com a estrutura adequada. Como a ideia é reduzir o número de secretarias e cortar gastos, não deverá enfrentar problemas com a hostil bancada ainda leal ao senador Amorim.

Subvenções, combustíveis...
Não são apenas possíveis desvios nas verbas de subvenções da Assembleia Legislativa, investigadas pela Procuradoria Regional Eleitoral, que assustam os deputados estaduais. A apreensão das CPUs que serviam como servidores dos departamentos administrativo e financeiro da Casa também vai despertar a atenção para outros possíveis crimes, que podem passar para a alçada estadual.
O caso das subvenções deverá ser julgado pelo TRE na primeira semana de dezembro, antes da diplomação. Há a suspeita de que alguns deputados negociavam os R$ 1,5 milhão a que têm direito, enquanto outros transferiam boa parte do dinheiro para entidades de suas famílias.
Um dos problemas mais graves é o controle de combustíveis. Cada deputado estadual tem uma cota mensal de R$ 10 mil para consumo de gasolina, sem a necessidade de comprovação de gastos. Basta apresentar uma nota fiscal no valor estabelecido entre eles e a verba entra na conta. Um ou outro deputado chega a devolver parte do dinheiro e apresenta notas fiscais de diversos postos. A maioria, no entanto, entrega uma nota fechada, no valor total, sempre do mesmo posto.
É uma festa e tanto.

Dificuldades na Câmara
Enquanto o governador Jackson Barreto caminha para ter uma tranquila relação com a Assembleia Legislativa a partir do próximo ano, o prefeito João Alves Filho passa a enfrentar dificuldades com a Câmara Municipal de Aracaju, apesar da sua folgada maioria. Na semana passada, o presidente Vinícius Porto (DEM) teve que usar o poder do voto de desempate para aprovar um tímido projeto e vereadores governistas continuam fazendo ameaças.
Os vereadores da base cobram o encaminhamento do Plano Diretor, fiscalização dos táxis clandestinos, melhoria no transporte coletivo, instalação de ponto eletrônico nos postos de saúde, 'desprivatização' da prefeitura e melhor controle administrativo.
Além disso, reclamam que o prefeito só tem olhos para Vinícius Porto, responsável pela nomeação de dezenas de comissionados na administração municipal, enquanto os outros vereadores sequer são atendidos em audiência por João.