Lobão e a Vovozinha atacam Chapeuzinho Vermelho

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Publicada em 05/12/2014 às 09:33:00

* Lelê Teles

Os tempos estão bicudos.
Acordo, alongo, abro lentamente a varanda e vejo o mar. Tudo em paz. As plataformas de petróleo ao longe anunciam a nossa riqueza, me vejo no futuro usando reluzente turbante.
O sol, sorridente como uma ave, beija o céu; há estrelas no mar.
Abro o computador e lá está outra realidade. Deparo-me, estarrecido, com a imagem de uma senhora de 79 anos levando uma gravata de um marmanjo engravatado. Aliás, pululavam imagens desta senhorinha.
Com mil diabos, penso eu, o que teria feito essa boa velhinha para sofrer tão aviltante ataque?
A resposta vem com brevidade. O ubíquo Lobão, barbas de Bin Laden, como uma epifania holográfica, se teletransporta para o Congresso Nacional e sai em defesa da boa velhinha.
Mas pera lá, Lobão deveria engolir a vovozinha. Alguém mexeu nessa história. E parece que os dois conspiram contra a Chapeuzinho Vermelho.
Macacos me mordam.
Vou ao Facebook, que é como se fosse a casa da vovozinha, e entro na página de vovó. Qual não é a minha surpresa, diligente internauta, a septuagenária atende pelo nome de Ruth Gomes de Sá, e tem o bico longo, faz selfie com Aécio, curte páginas do PSDB e tem até um texto em que ela agradece o enfurecido candidato mineiro pela "vitória" contra Chapeuzinho Vermelho.
Do alto de sua longeva sabedoria, vovó alerta que Aécio venceu e só não levou porque Chapeuzinho meteu a mão de gato nas urnas. Mas alerta que o povo e os militares estão de olho.
Atentai bem.
E o que fazia vovó no ato em que foi devidamente engravatada? Arruaça, amigos meus; arruaça. Ela fazia parte de uma claque tucana que adentrou a Casa do Povo para tentar impedir uma votação e isso atenta contra a nossa Constituição, nunca se esqueça.
Os truculentos sempre querem levar no grito ou na porrada. Às vezes acabam levando porrada.
Passarinho que come pedra sabe.
O Congresso Nacional é um grande agá, disso todos nós estamos carecas de saber, é só olhar para o desenho da fachada do edifício. Mas lá tem regras, tem regimento e tem a Polícia Legislativa que existe para restabelecer a ordem.
Por isso a gravata em vovó.
A velhinha era uma desordeira. Em sua página no Face, essa ativista do movimento Vem pra Rua, convocava os eleitores de Aécio a irem ao Congresso tentar obstruir a votação que permitiria uma relaxada no cumprimento da meta do superávit; exatamente o que FHC fez em 2001, é sempre bom lembrar.
Aécio, que andava sumido do trabalho, farejou holofotes e lá estava a defender as mulheres, disse que vovó é o povo indignado. Conversa mole, vovó é coxinha. Ela joga no time do Bolsonaro, aquele que vai à manifestações com uma pistola na cinta, aviltando a nossa Constituição. Ela foi defendida por Izalci e por Caiado, Lobão quase entrou em suas vestes.
Armaram um circo, xingaram uma senadora de vagabunda, barracaram a Casa, mandaram outra parlamentar ir pra Cuba; enfim, uma sessão de misoginia, machismo, oligofrenia e descarrego.
Queriam o quê?
Ao fim e ao cabo, Lobão sairá abraçado com a vovozinha, e a Chapeuzinho Vermelho terá vencido mais uma.
Lobão voltará a contar aquela piada de jogar xadrez com um pombo e tal. E essa palhaçada será apenas mais uma.
Depois que o hierarca da família Collor meteu um tiro em um parlamentar dentro do parlamento, tudo o mais é fichinha.
Palavra da salvação.

PS: Nada justifica a agressão a uma senhora. Nada. Isso é abuso e é inaceitável.

* Lelê Teles é jornalista e roteirista