O QUE TEM O LOBO DA FÁBULA COM O RIO TIETÊ

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Publicada em 07/12/2014 às 00:49:00

Pode parecer estranho o título. O que teria o lobo, animal selvagem, carnívoro, com um rio paulista?
E por que, ainda mais, onde entrariam o Tietê e o lobo que seria personagem de uma fábula?
O predador que povoa o imaginário dos povos europeus, enriquece a literatura, o folclore, até a música e a pintura, invariavelmente figurando como expressão do mal e da sagacidade malévola e traiçoeira.
Nas historias infantis o lobo surge com frequência. O lobo até engoliu Chapeuzinho Vermelho e a vovozinha dela. Teriam as duas permanecido nas entranhas do bicho, não fora a providencial aparição de um destemido caçador que, após matar a fera cortou-lhe a barriga, e dela  retirou vivas a menina e a velha.
La Fontaine que escrevia para crianças e produzia também folhetins pornográficos,  revelou todo o cinismo e a desfaçatez malévola do lobo no episódio em que a fera bebia num regato e abaixo estava um indefeso cordeirinho. O potente animal  se disse furioso porque o outro, um vizinho fraquinho, estava a sujar a água que ele bebia. De nada adiantaram as balbuciadas  tentativas do cordeirinho para aliviar a fúria lupina  que logo acabou por devorá-lo.
Os romanos, que tinham sua origem em Rômulo e Remo os dois, amamentados por uma loba, nem por isso anistiaram a espécie, e ate criaram o aforisma: O homem é o lobo do homem.
Nada melhor para caracterizar a autofagia da espécie humana do que essa crise de água que agora São Paulo vive. Além da imprevidência que relegou a água e os rios ao esquecimento, a cidade cresce e suas fontes de abastecimento continuam as mesmas há mais de 40 anos. Acrescente-se a isso o instinto predador do próprio homem,  que transformou  num enorme esgoto o rio Tietê, justamente o que atravessa a megalópole ameaçada de ficar sem gota de água.
É a velha estória do lobo corrente acima emporcalhando a água dos que a bebem abaixo, indefesos, e ainda transformados em  culpados e punidos.