É sempre bom lembrar e registrar (II)

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Publicada em 11/12/2014 às 11:16:00

* Raymundo Mello

Volto a duas pessoas com quem me relacionei, com os devidos cuidados: Dom José Vicente Távora e José Augusto Barreiros de Azevedo. Ambos se davam aparentemente bem e eu entrei na história pelas razões externadas no artigo publicado na edição de 02 de dezembro de 2014 do Jornal do Dia.
Fui, como já disse, convocado para dizer quem eram as pessoas beneficiadas com as passagens aéreas que a empresa fornecia gratuitamente a pessoas indicadas pelo Bispo; fui, é força de expressão pois o "convite" era para o Agente da companhia, José Augusto, mas, como ele, à época, residia mais no Rio de Janeiro do que em Aracaju e eu era seu procurador,o ônus ficou para mim. Atendi, de portas abertas e cópias das passagens que emitimos durante mais ou menos dois anos, devidamente arquivadas em ordem numérica, e não adiantou nada, eram, como citado, passagens normais, sem carimbo ou observação de "cortesia" e emitidas em nome de passageiros comuns que viajavam no Loide Aéreo. E pra nós, o assunto foi liquidado.
Alguns dias depois, fui à festa de aniversário da filha de um compadre meu, festa muito bonita, caprichada, na casa do avô da criança, na praça Camerino (ele, amigo íntimo do Bispo). Ao entrar na mansão, lá estava, bem instalado, Dom Távora. Cumprimentei-o com o devido respeito e me dirigi à mesa que estava reservada para mim, esposa e filho, e participamos da festa; aí, um intermediário chegou ao meu ouvido e disse-me: "Dom Távora quer falar com você". Atendi imediatamente, e ele, com sua voz marcante, falou-me: "Mello, vocês vão ser chamados para falar sobre aquelas passagens". E eu, bem calmamente, respondi: "Já fomos". E ele, bem solene: "Então, o que apuraram?". Eu, tranquilamente respondi: "Nada, Dom Távora, não havia registro de qualquer passagem de "cortesia" fornecido a seu pedido". Ele abriu os olhos como que surpreso e disse-me: "Nada?". E eu: "Nada!". E ele: "Tá bom, volte pra sua festa". Depois, calmamente, José Augusto visitou-o e lhe explicou tudo.
Algum tempo depois, sentimos, com saudade e respeito o falecimento do 3.º Bispo e 1.º Arcebispo de Aracaju.
Sobre o amigo José Augusto Barreiros, duas façanhas na área política. A primeira delas: o PTB de seu Macedo andava desprovido de duas coisas importantes na política: candidatos ao Senado pela sigla partidária em Sergipe e, principalmente, dinheiro para custear a campanha. E aí, Barreiros, em comum acordo com Jaime Cruz de Oliveira, então líder do PTB em Aracaju, que trabalhava conosco, resolveu lançar o Coronel Gibson, seu amigo, ex-presidente do Loide Aéreo Nacional, para concorrer ao cargo - era um cidadão de bom caráter, nome limpo e endinheirado.
Combinaram tudo, inclusive com seu Macedo, e, no dia e hora marcado em que o Coronel pousaria em Aracaju de passagem para Recife, lá estavam os três para oficializar o convite, em pleno aeroporto da capital; Zé Augusto já tinha até armado a campanha eleitoral e assim que o esperado candidato desse o "Sim" e soltasse a grana, entraria em rádios, jornais, visitas, etc. ... e ainda sobraria grana para ajudar o PTB e seu Macedo.
Mas o Coronel, inteligente, não aceitou o convite, alegando que já tinha recebido igual aceno à política em seu estado e havia recusado. Ficou, porém, muito emocionado e agradecido, e prometeu uma colaboração financeira para o partido. Se mandou, não sei, aí já é outra área.
A segunda façanha política, essa sim, foi vitoriosa - a candidatura de Seixas Dória ao governo do estado de Sergipe. Tudo começou e foi costurado lá mesmo, no escritório da empresa, rua Laranjeiras, número 31. Diariamente, Zé Augusto era procurado e marcava os encontros com os coordenadores daquela ala, a saber, em primeiro plano, jornalistas Paschoal Maynard e José Rosa de Oliveira Neto, que recebiam, com muita atenção, cuidados e cochichos as pessoas selecionadas para aqueles fins de tarde. As reuniões não podiam ser em outro horário porque aqueles dois incrementadores da campanha eram funcionários públicos - um do IBGE e o outro do IAPI.
Terminados os encontros, dirigiam-se à Gazeta Socialista, afamado jornal de propriedade do jornalista e político Orlando Dantas, onde lançavam seus artigos, verdadeiros manifestos contra o outro candidato, Dr. Leandro Maciel (meu padrinho de Batismo, em quem votei), cujo slogan da campanha era "Ninguém se perde na volta" - ele já havia sido governador do estado e estava a caminho de novo mandato; mas o slogan não se confirmou, ele perdeu.
E Seixas, fez o que foi possível por Sergipe, mas o experiente Deputado Federal, no governo do estado, não prosperou; participou do Comício da Central do Brasil com João Goulart e foi deposto pelo golpe militar de 31 de março de 1964.
Já Barreiros, sofreu apenas quando o Serviço Telefônico de Sergipe, de propriedade de seu pai, senhor Deoclides Paes de Azevedo, foi desapropriado pelo governo da revolução e ele dedicou toda a sua vida, a partir de então, à indenização devida pela desapropriação nos caminhos da justiça. Ganhava onde se achava a causa e aí o governo recorria e começava tudo de novo.
A família foi desaparecendo aos poucos, enquanto o processo ia e vinha de tribunal em tribunal. O nosso Zé Augusto faleceu e não se sabe, pelo menos publicamente, como ficou o processo.
A memória guardou esses fatos. Um dia os pesquisadores os incluirão na história.

* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br