A conveniência das altas patentes

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Publicada em 11/12/2014 às 11:17:00

Ao contrário das atrocidades cometidas nos porões da ditadura, um pedido de desculpas não tira o braço de ninguém. É o que exige a Comissão Nacional da Verdade, presidida pelo militante Pedro Dallari, para quem o reconhecimento da tortura infligida pelos militares aos opositores do golpe é um passo indispensável à conciliação nacional.
Seria o mínimo cabível, quase nada, perto das centenas de mortos e desaparecidos no escuro de um passado que permanecia insondável em função da conveniência das altas patentes. Felizmente, os tempos são outros. Apesar de todos os esforços em sentido contrário, após mais de dois anos de trabalhos, a Comissão concluiu e divulgou ontem um relatório em que enumera as covas abertas no silencia covarde da clandestinidade pelo terror.
Instalada em maio de 2012, a CNV foi criada para apurar e esclarecer, indicando as circunstâncias e a autoria, as graves violações de direitos humanos praticadas entre 1946 e 1988 (o período entre as duas últimas constituições democráticas brasileiras) com o objetivo de efetivar o direito à memória e a verdade histórica e promover a reconciliação nacional. Oportuno. Até agora, para todos os efeitos, as 434 mortes e desaparecimentos de vítimas da ditadura apontadas pela Comissão permaneciam sem explicação.
Convém mencionar, contudo, que ainda há muito para ser investigado. Em Sergipe, por exemplo, palco para o show de horrores da Operação Cajueiro, nenhum esforço foi realizado nesse sentido. Talvez fosse o caso de o governador Jackson Barreto, que viveu essa página infeliz da história muito de perto, ele próprio feito preso político, pegar o embalo e aproveitar as prerrogativas do cargo que lhe foi confiado pelo povo sergipano para trazer à tona as barbaridades então cometidas. Demonstraria responsabilidade com a sua própria história, a memória e o futuro de nossa gente.