A educação como norma

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Publicada em 24/12/2014 às 09:39:00

* Ary Moreira Lisboa

Muito se tem discutido como são criados os filhos na atualidade. De minha parte tive uma educação bastante rígida, quase castrista, com horários de saída e chegada em casa, na primitiva Itanhem do final dos anos 30 e início de 40, quando fui estudar interno com os padres, no Colégio São José, em Teófilo Otoni, em 1945, aos oito anos de idade. Naquele tempo havia disciplina em tudo. Com a evolução, tudo mudou inclusive os costumes, o que é natural. Antigamente se atribuía aos pais a obrigação de educar seus filhos, sendo que o convívio com a escola quase nada significava. Leio no Jornal a Folha do Estado de São Paulo que os pais que vivem em bairros violentos da capital paulista, comprometem mais de 20% de suas rendas com pagamentos com escolas particulares para manter os filhos. É voz corrente que a educação dos filhos sofre influência dos pais. É uma meia verdade. Os pais influenciam os filhos na educação, na religião, principalmente, com a doutrinação desde pequeninos, levando-os aos cultos, pregando os ensinamentos bíblicos, entre outros. Como o cérebro da criança está em formação é fácil conduzi-lo para determinada direção. Grosso modo, pode-se fazer uma comparação com um escultor que vai burilando uma peça bruta até chegar ao formato por ele idealizado. Mas esta influência dos pais pela formação do caráter dos filhos é discutida. Ainda na Folha, toma-se conhecimento de que muitos estudos comprovaram que a influência dos pais para formação e comportamento dos filhos é muito menor do que se imaginava e que são percorridos por outros caminhos diferentes daqueles que eram esperados. Tal hipótese foi levantada pela primeira vez pela psicóloga americana Judith Harris no final dos anos 90. Segundo o seu entendimento, "os jovens vêm programados, não pelos pais, como pregam nossas instituições e nossa cultura, mas pelos pares, isto é, pelas outras crianças com as quais convive". Entre os muitos argumentos por ela usados para apoiar sua teoria é o fato "de que filhos de imigrantes não terminam falando com a pronúncia dos genitores, mas sim com a dos jovens que os cercam". Faz sentido. Tenho um neto nascido nos Estados Unidos, que chegou ao Brasil os oito anos de idade sem falar português. Hoje aos 14 anos fala a nossa língua sem qualquer alteração. Pela sua fala ninguém será capaz de identificar sua nacionalidade. É brasileiro nato. O mesmo ocorreu com seu irmão brasileiro quando foi morar com os pais lá. Com menos de sete anos, não falava inglês, bastaram alguns meses de convivência com alunos da escola para dominar com desenvoltura o idioma de Allan Poe, sem sotaque. No estudo da Dra. Harris, as grandes aglomerações urbanas foram responsáveis pela introdução de diversos problemas, pois em nosso ambiente ancestral, onde no máximo duzentas pessoas se aglomeravam em cantinhos de crianças muito heterogêneos, onde eram reunidos meninos e meninas de várias idades. Enquanto que hoje com escolas que reúnem centenas de alunos, o garoto ou garota tende a socializar-se com coleguinhas do mesmo sexo, idade, interesses e múltiplos divertimentos. Em tais casos se observa a formação de pequenos nichos com características mais intensas, bastante exacerbadas. Onde as meninas se tornam heperfemininas, enquanto que os meninos se tornam mais hiperativos. O mau aluno encontra outros maus alunos, formando assim uma nova subcultura onde o ideal é rejeitar a escola, que será percebido como algo positivo. Tal argumento é extensivo e válido para o consumo de drogas, a violência, outro tipo de ilícito, até. Mas outras vertentes podem surgir como meios para valorizar a leitura e outras aptidões. A se adotar o modelo da Dra. Harris, a melhor chance que os pais poderão alcançar para influenciar os filhos será usar a velha e batida recomendação dos pais antigos: "uma ovelha má põe o rebanho a perder". Deve os pais observar os vizinhos e os amigos de seus filhos, bem como a escola que frequentar. Quando ainda criança gostava de brincar criando enigmas e dificuldades, tais como, introduzir uma fruta, no caso laranja, dentro de uma garrafa transparente. No momento em que o botão desabrochava, era o mesmo introduzido dentro da garrafa, que era amarrada ao galho esperando o seu desenvolvimento natural. Se a garrafa era quadrada, a fruta tomava o mesmo formato dela. Exibida na rua aos outros garotos todos queriam saber como se podia introduzir uma laranja dentro de uma garrafa sem destrui-la. Esta pequena lembrança nos leva aos meios alcançados pelos pais para formação e educação de seus filhos, em todos os seguimentos e costumes. Sendo ainda pequenos e em formação facilmente poderão ser moldados ao meio em que foi criado. Faz parte do pátrio poder. "A incapacidade do ser humano de admitir a realidade não pode ser exagerada". Paulo Francis.

 *Ary Moreira Lisboa é advogado e escritor