Jackson e o seu discurso metafísico

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Publicada em 06/01/2015 às 09:02:00

Sem requintes de intelectualidade alguma, mas também sem o uso melindroso das palavras, o discurso de posse do governador Jackson Barreto, lido na tribuna da Assembleia Legislativa no dia 1º de janeiro, é o retrato da dificuldade que ele (Jackson) terá pela frente nos próximos quatro anos. Não há novidades para Sergipe, as promessas são sempre as mesmas e o passado é o que tenta justificar o que se pretende no futuro. Jackson Barreto, sinceramente, fez um discurso que olha pra frente, mas propositalmente não arreda o pé do passado. Algo metafísico que se estabelece por causa do pré-estabelecido. E assim foi-se construindo um discurso que buscou encarar a realidade, sem espaço para fragilidades, mas sem razões casuísticas que possam desconstruir nada do que pretende durante essa jornada pública.
Homem forjado nas lides do povo, Jackson fez questão de deixar claro o que é e o que representa nesse contexto político-social. "Os senhores e as senhoras estão diante de um governador que é filho de um bodegueiro, seu Etelvino, e de uma professora, d. Neuzice Barreto. Nasci e cresci convivendo com o povo. Vivendo suas angústias e aflições, sentindo na pele o que é também ser povo. Vi de perto o sacrifício dos meus pais quando decidiram sair do interior do estado (Santa Rosa de Lima) e vir pra capital criar e educar os filhos. Comecei a trabalhar aos 13 anos de idade numa loja de tecidos no comércio de Aracaju. Depois fui carteiro na nossa cidade. Percorri ruas e ruas, bairros e bairros levando telegramas e correspondências", disse.

Mesmo sendo do povo, foram várias as vezes em que Jackson esteve lado a lado com o poder. Mas isso é o que lhe garante experiência e nos transmite confiança enquanto gerente maior do Estado. Tanto é que no discurso ele exaltou o histórico de suas diversas posses em cargos públicos, desde a década de 1970, para enfim desaguar nessa conquista histórica para muitos. "Fiz questão de deter-me sobre os principais cenários políticos em que se deram os atos de posse que tive a honra de protagonizar para que eu pudesse, entre todos eles, entre toda a singularidade política, histórica e cultural que cercaram todos os demais, destacar precisamente este, ao qual compareço, hoje, perante os senhores e senhoras, tomado por uma honra sem igual, para tomar posse no cargo de governador eleito do Estado de Sergipe".
E para não perder o tom político da solenidade, mesmo jurando não ser uma provocação aos opositores, o discurso de Jackson buscou dar uma tapa de luva de pelica na cara dos irmãos Amorim. "Esta posse se reveste de muita alegria e muita realização, pois tenho a felicidade de comparecer a este ato após ter sido votado e eleito governador de Sergipe pela vontade soberana e indiscutível do meu povo, que deu a mim, a este humilde servidor da nossa gente, a maravilhosa marca de mais de 537 mil votos dos sergipanos, estabelecendo uma diferença de mais de 122 mil sufrágios, coisa que há muitos e muitos anos não se via nas disputas para governador em Sergipe, e uma votação que me fez vitorioso em 67 cidades de Sergipe, o que significa a esmagadora maioria dos municípios sergipanos".

Jackson Barreto não esqueceu de citar muitas das pessoas que fazem parte do seu rol de convivência no cenário político local. No entanto, destacou dois nomes para deferências especiais: José Carlos Teixeira e Rosalvo Alexandre. "Dois nomes cuja relevância é inquestionável no panorama político sergipano e, especialmente, para mim, para a minha história pessoal e política", disse. E para reforçar sua identidade com o povo sergipano, o governador Jackson tratou de permear seu discurso de posse com frases de efeito que agradam os mais emotivos. "Os que me conhecem sabem que sou um homem humilde, desprovido de maiores veleidades. Sempre fui um amante do povo. Tenho verdadeira devoção pelo jeito criativo, trabalhador, honesto, corajoso e alegre com que nossa gente toca a vida, vencendo dificuldades e transpondo obstáculos sem perder a fé, e ainda com bom humor pra sorrir, pra cantar, pra ser feliz".
No mais, o experiente governador apontou a fala rouca para alguns gargalos da administração pública, pedindo sempre compreensão e parceria para que pudesse superar obstáculos nas áreas de saúde, segurança, educação e saneamento básico. "Estamos confiantes em relação ao presente e futuro de nossa gente. Deus nos deu régua e compasso para traçar o nosso destino, com luta, trabalho e respeito pelo povo. Temos a convicção que estamos trilhando o caminho mais seguro e promissor para retribuir a confiança depositada em nós pelo povo sergipano", destacou.

"O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado".
Albert Einstein

Citações
O ex-governador Marcelo Déda, falecido em dezembro de 2013, foi o personagem mais citado no discurso de posse de Jackson. O nome dele aparece quatro vezes no decorrer das 22 páginas escritas. O segundo nome mais citado foi o da mãe do governador, Neuzice Barreto, que aparece três vezes. O nome do pai, seu Etelvino, aparece duas vezes no discurso.

Destino
Numa das citações a Déda, a emoção tomou conta de todos no ambiente. "Disse naquele momento (da primeira posse como governador, em dezembro de 2013), e volto a reafirmar hoje, que se para me tornar governador fosse preciso perder Marcelo Déda eu jamais gostaria de tê-lo sido. Mas às vezes a vida caminha por insondáveis rotas que o Destino constrói".

Valadares
O agradecimento feito com extrema deferência ao senador Antônio Carlos Valadares (PSB) chamou a atenção de todos. Isso porque desde o segundo turno da eleição presidencial em 2014, quando Jackson foi de Dilma e Valadares foi de Aécio, os dois políticos sergipanos estavam às turras. Parece que foi a fumaça branca do cachimbo da paz oferecido aos dois velhos caciques.

Fui roubado
Mesmo feliz com a vitória eleitoral e suas consequências, Jackson Barreto não esqueceu do pesadelo da derrota naquele fatídico 1994. "Essa posse reveste-se também de um significado especial para mim, porque realiza no presente um sonho que as forças herdeiras da luta democrática em nosso estado sonharam em 1994, vinte anos atrás, quando numa aliança histórica que uniu toda esquerda e o centro-esquerda de nosso estado, com minha candidatura ao governo estadual. Contra todo o esquema de forças conservadoras daquele momento, ganhamos as eleições no primeiro turno, e elegemos os dois senadores nas duas vagas em disputa - o senador José Eduardo Dutra e o senador Antônio Carlos Valadares. Infelizmente, não conseguimos manter a vitória ao governo no segundo turno. Como se diz na linguagem popular, batemos na trave, embora já houvesse indícios de que a bola havia sido desviada com a mão".

Posse coletiva
Hoje é dia de posse coletiva do secretariado de Jackson Barreto. Será às 10 horas no Palácio dos Despachos. Na lista, políticos e técnicos que terão a missão de reorganizar a máquina administrativa de acordo com as ideias do chefe. Serão empossados Belivaldo Chagas (Casa Civil); Benedito de Figueiredo (Governo); João Augusto Gama (Planejamento, Orçamento e Gestão); Jorge Carvalho (Educação); Jefferson Passos (Fazenda).

Posse coletiva 1
A lista de secretários de Estado ainda tem Valmor Barbosa (Infraestrutura); Antônio Hora Filho (Justiça); Esmeraldo Leal (Agricultura); Adilson de Carvalho Silva Júnior (Turismo, Esporte e Lazer); José Sales Neto (Comunicação); Olivier Ferreira das Chagas (Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos); Adinelson Alves da Silva (Controladoria Geral do Estado); e Arthur Cezar Azevedo Borba (Procuradoria Geral do Estado).

Saúde e Segurança
Ontem foi empossado o secretário de Estado da Saúde, José Macedo Sobral, gestor de extrema confiança do governador Jackson Barreto. No caso de Mendonça Prado, indicado a secretário de Segurança Pública, sua posse poderá ocorrer posteriormente. Isso porque Mendonça ainda exerce o seu mandato de deputado federal, devendo permanecer neste posto até o dia 31 de janeiro. Vai aproveitar para um necessário período de transição com o atual secretário João Elói.

Ainda faltam
De acordo com informações de assessoria, o governador Jackson Barreto ainda vem mantendo contatos com alguns aliados políticos para nomeação de ocupantes de mais três Pastas: Secretaria de Inclusão Social, Secretaria da Cultura e Secretaria de Desenvolvimento e Tecnologia.

Desmaio
O presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe, Cláudio Dinart Déda Chagas, passou mal e desmaiou ontem durante a solenidade de posse do novo presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL), desembargador Washington Luiz Damasceno Freitas. O fato foi tão preocupante que a solenidade no Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso, em Maceió, precisou ser interrompida. Cláudio Déda chegou a cair da cadeira em que estava sentado e foi amparado rapidamente por uma equipe médica que estava de prontidão no local. Ele recobrou a consciência momentos depois do incidente, mas não voltou a compor a mesa para a solenidade.