Kátia Abreu, Caium e Abel

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Publicada em 08/01/2015 às 09:32:00

* Lelê Teles

Ao vencedor, as batatas. Grita Humanitas.
Talvez por isso Kátia Abreu apareceu na cerimônia de posse presidencial com as batatas da perna de fora. Um sinal de sua conversão à filosofia do Humanitismo.
Sim, ela venceu. Tomou posse, é amiga da presidenta e, também por isso, venceu a resistência enorme que pesava contra os seus ombros largos.
Na refrega, havia dois grupos insaciados, um deles insaciável, os que ganham muito dinheiro com a terra e os que têm pouca terra e pouco dinheiro.
Há ainda um terceiro grupo que não tem nem um e nem outro.
Terra há.
E é criminoso invadir terras legais e produtivas, a constituição garante a inviolabilidade da propriedade privada. Ponto.
Mas há ressalvas na Carta. Ponto e vírgula. Terras griladas ou ociosas têm dono, o Estado brasileiro, o povo brasileiro.
Há que se pensar também, é só ler a Carta, no princípio constitucional da função social da terra.
Alimentar o povo, gerar renda, gerar emprego.
A lei ainda assegura terras para os índios, para criação de unidades de conservação e de reservas ecológicas.
O conflito é provocado, sempre, entre a fraternidade versus ganância e egoísmo. Os discípulos do maior filósofo brasileiro, Quincas Borba, acreditam que não pode haver divisão, porque não há para todos, se repartirmos o que temos entre todos nós, nós todos morreremos de inanição. Daí a guerra.
Venceu a chamada Rainha da Motosserra. Batatas pra ela.
Mas tenho cá um pressentimento de que começa a assar a batata de Kátia Abreu.
De um ministro de Estado se espera diálogo, alinhamento com a filosofia do poder central, discrição e, acima de tudo, ação.
Senhora Abreu parece ignorar todas essas etapas. E anda a dar com a língua nos dentes.
Simplória, fez uma analogia tão tacanha, tão chã, tão farelo que deveríamos nem estar a comentá-la aqui, o faremos por ofício. Dizer que os índios estão a "descer" e invadir a propriedade dos capitalistas é uma digressão estapafúrdia.
Defender o latifúndio que avança sobre áreas indígenas com o infeliz argumento de que ninguém pretende devolver Niterói ao cacique Araribóia ou Sergipe ao cacique Serigy é uma afronta, um acinte, um deboche.
Mas não paremos por aí, Kátia parece se aproximar de sua homônima, que cantou sucessos até os anos 80, e não enxerga o que está à sua frente. Disse, disso nunca nos esqueceremos, que não há mais latifúndios no Brasil.
Huuuummmm. Essa foi de lascar.
Quer dizer que a soja que alimenta animais mundo afora, a carne e o frango que alimentam seres humanos mundo adentro, as milhares de toneladas exportadas do agronegócio brasileiro são, tudo isso, produções artesanais de chacareiros?
Latifúndios há e estão em crescimento, mesmo que grande parte destas terras sejam apenas fruto de ganância e vaidade, pois estão ociosas, improdutivas.
Há muita gente honesta trabalhando a terra, pequenos e grandes produtores; e há gente honesta precisando de terra para trabalhar. No meio destes, há os astutos seguidores de Caim e Abel, os que avançam sobre florestas, desrespeitam leis, mandam e desmandam; matam e desmatam.
Kátia Abreu ainda não deixou claro de que lado está.
A história da humanidade, segundo a Bíblia, começa com um conflito. Adão, o primeiro homem, teve dois filhos. Um se tornou agricultor e o outro pecuarista.
O Deus de ambos, que era um só, invisível, indizível e indivisível, pedia a eles sacrifício, cada um deu o que produzia.
Mas o ciúme, o egoísmo e a vaidade, fez com que essa história acabasse em morte. Caim, o agricultor, matou Abel, o pecuarista.
A história nos conta, ainda, que os descendentes de Caim se comportaram como ele, egoístas, vaidosos e gananciosos. Todos pereceram no Dilúvio.
Adão teve outro filho, Shais, deste sujeito descende Noé, a justiça e a fraternidade, e deste descendemos todos nós.
Deus, senhora Abreu, mais uma vez pede sacrifício.
Atentai bem, pois é tempo de chuvas.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles é jornalista e roteirista