Os pinguins roubaram a cena

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Um filme só deles!
Um filme só deles!

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Publicada em 17/01/2015 às 01:09:00

* Anderson Bruno

Quando o filme "Madagascar" estreou no ano de 2005, não houve quem ficasse indiferente à presença de 4 pinguins malucos na história. Praticamente construindo uma história paralela na trama, esses projetos de agentes secretos ganharam não apenas a simpatia do público. Entre 2008 e 2014 eles conseguiram também ser protagonistas de uma série animada de desenhos exibida no canal infantil Nickelodeon.

Agora em 2015, nove anos depois do lançamento de "Madagascar", um novo patamar envolve o quarteto. Capitão, Rico, Kowalski e Recruta ganham a telona no longa-metragem "Os Pinguins de Madagascar" (Penguins of Madagascar, Eric Darnell e Simon J. Smith, EUA, 2014, 92 min).
"Estamos cansados dessa música!" reclama os pequeninos ao escutar "I Like To Movie It" (ou "Eu Me Remexo Muito", na versão em português). A canção faz parte da trilha do filme original. É um grito de independência e de negação ao passado. Agora, eles têm um filme só deles!

Nesse petardo dos estúdios DreamWorks, nossos amigos precisam encarar o vilão Dave para salvar todo um grupo de companheiros espalhados pelo mundo. O algoz, depois do trauma de ser excluído dos zoológicos dos quatro cantos do globo, decide se vingar da raça dos fofos e simpáticos bichinhos.
O roteiro de Michael Colton, John Aboud e Brandon Sawyer faz uma volta no tempo à época dos acontecimentos no zoo de Nova York. O polvo Dave (voz de John Malkovich) acaba por aportar no Rio de Janeiro logo depois de sido posto a escanteio com a chegada dos quatro fofuchos.

Por sinal, o mercado de países emergentes é um prato cheio para os executivos da animação. Depois de cenas reproduzidas no Brasil, a China também ganhou uma sequência na produção. Na cidade de Xangai, várias 'pinguinzinhas' são sequestradas. Na verdade, aves do mundo inteiro são capturadas por Dave. O aspecto internacional é estabelecido e sua estratégia de distribuição ao redor do mundo se configura. O nome disso se chama dinheiro em caixa!

A sequência de ação gravada em Veneza é um dos pontos máximos executado pela dupla de diretores. Tudo é muito criativo, inteligente e empolgante. Em determinado momento, os pinguins passam por baixo de uma pequena ponte de concreto. É uma cena de perseguição por entre os canais da cidade italiana. Jamie Hardt, editor de efeitos sonoros, teve o cuidado de variar a acústica nesse momento. De som ambiente passamos a ouví-lo em reverb por causa da propagação sonora ocasionada pela mudança do espaço cênico.
Em outro ponto, uma brincadeira legal é construída a partir do preto e branco da plumagem de nossos amigos. Ao passar na faixa de pedestres - feitas a partir dessas duas cores - o lúdico da camuflagem é aproveitado e a originalidade conquistada.

Pena que nem todo o filme é assim. O roteiro não tem nenhuma novidade. Existem os mocinhos, os bandidos e a lição de moral no encerrar da produção. Além disso, o longa não tem boas piadas ou interessantes construções cômicas. O ponto principal de graça está na simpatia de todos os seus personagens. E só!
Há um aspecto freudiano sobressalente em "Os Pinguins de Madagascar". O mais famoso dos psicanalistas deve estar se remoendo na tumba nesse momento. Nossos protagonistas arrebitam o bumbum para dar tapinhas frenéticos entre eles, outra cena revela um braço saindo por 'detrás' de 'Recruta' (!) e noutra parte um deles tenta comer a bunda do outro. Literalmente.

O histórico de subliminaridade em desenhos animados é altíssimo. Não há como ver essas imagens e não pensar no contexto sexual sugerido. Uma homossexualização infantil está implícita? Pode ser. Afinal, nem sempre uma banana é apenas uma banana, se é que você me entende.
O diretor alemão Werner Herzog empresta a voz ao documentarista que aparece logo no início do filme e o efeito 3D cumpre sua função de tirar dinheiro do público. Todas as cópias exibidas em Aracaju são dubladas.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual