Filmes bons sempre ficam

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Aura de segredo permeia o filme
Aura de segredo permeia o filme

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Publicada em 07/02/2015 às 00:34:00

* Anderson Bruno

Há 72 anos, estreava nos Estados Unidos, aquele que seria apontado como um dos maiores clássicos mundiais. "Casablanca" (Casablanca, 1942, EUA, 142 min) teve a valorosa incumbência de abrir a 5º temporada de clássicos da Rede Cinemark.
O tempo passa e o que é bom fica. Não tem jeito. Sorte de quem conseguiu rever essa verdadeira pérola da cinematografia mundial. Não faltam aspectos superlativos para elaborar uma lista de elogios à primazia da obra. A começar pelo par romântico Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman). Todo o centro da história - escrita pelos roteiristas Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Cock - está nesse relacionamento.

É muito interessante a construção de seu gênero enquanto 'film noir'. Primeiro a fotografia de Arthur Edeson a contemplar com seu preto e branco cada fotograma encenado. Salvo algumas exceções, a imagem com essas duas cores básicas dão o tom perfeito à aura de segredo no filme.
Logo depois há o show de personagens escrotos a desfilar no decorrer da produção, a começar pelo próprio Rick. De contrabandista de armas ele passa a ser dono de um bar na cidade marroquina de Casablanca, colônia francesa fora da dominação nazista e refúgio daqueles mais abastados em meio à 2º Guerra Mundial.

O bar de Rick, por sinal, é o principal cenário de "Casablanca". Desenhado por Carl Jules Weyl, é o local onde somos apresentados a cada um dos papéis. Tudo acontece por lá. Vai desde o ladrão Ugarte (Peter Lorre), passando pelo impagável chefe corrupto de polícia interpretado pelo excelente Claude Rains até chegar em Ingrid Bergman. Coube a ela o papel da 'femme fatale', arquétipo imprescindível nos 'films noir'. Com sotaque sueco e tudo.

Ela desenrola dois momentos muito bons dirigidos por Michael Curtiz. Primeiro quando da sua chegada à cidade junto com seu marido Victor Laszlo (Paul Henreid). Eles vão direto para o bar de Rick. Avistam Sam (Dooley Wilson), tocador de piano e cantor do lugar. O roteiro já deixa explícito serem já conhecidos a dama e o pianista. Ela pergunta por Rick. Sam mente, diz que ele não está. Daí, depois de Ilsa muito insistir, nosso amigo toca a icônica canção "As Time Goes By", música proibida no recinto. Ao ouvir, Rick sai desenfreado das dependências do estabelecimento e pede para Sam parar de executá-la. É o momento do clímax. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman se entreolham e nada mais volta a ser como era antes. Nem para eles e nem para nós, espectadores.

O segundo momento está representado quando Rick está a se embriagar, sozinho, em seu próprio bar, logo depois do expediente. O motivo: a volta de sua amada. Há uma lacuna deixada no relacionamento deles. Daí, Rick diz a Sam: "Estou aqui porque ela vai aparecer por aquela porta". Parece conversa de bêbado. Minutos passam e a história dos dois é rememorada num 'flashback'. Paris é tanto a cidade idílica do romance proibido deles quanto o fator de separação dos dois pela invasão alemã comandada por Adolf Hitler. Ela o abandona sem maiores explicações e ele parte num trem sozinho. O 'take' volta ao presente e o mostra desamparado no bar. Até que, de repente, ao fundo, surge aquela mesma mulher que o havia abandonado na capital francesa, desta vez para se redimir. Não era conversa de bêbado. A catarse é consumada.

São incontáveis as referências a essa produção. Seja na composição da trilha sonora feita pelo mítico Max Steiner, seja pela execução da Marselhesa em detrimento ao hino nacional alemão no bar onde tudo acontece ou na antológica cena final de despedida no aeroporto.
 "Casablanca" ganhou o Oscar de melhor filme de 1943 e foi baseada numa peça nunca encenada chamada "Everybody Cames to Rick's" ("Todo mundo vem ao bar de Rick") escrita em 1941 pela dupla Murray Burnett e Joan Alison logo após o ataque japonês à base estadunidense de Pearl Harbor  no Havaí, fator decisivo para a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra.

*Anderson Bruno é crítico audiovisual.