Com as bênçãos do Cacique

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\'Os cangaceiros\', de Jenner Augusto - um dos maiores vultos das artes em Sergipe
\'Os cangaceiros\', de Jenner Augusto - um dos maiores vultos das artes em Sergipe

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Publicada em 10/02/2015 às 15:08:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O Cacique Chá parecia uma miragem na paisagem afetiva do Centro Histórico de Aracaju. As lorotas dos mais velhos e as crônicas de Amaral Cavalcante davam ciência dos amores e revoluções ameaçadas pela alvenaria vacilante da tenda armada numa quina da Praça Olímpio Campos. O tempo comia as histórias dos bêbados e um painel pintado por Jenner Augusto com a mesma paciência. A única urgência relacionada ao

Cacique Chá estava relacionada à necessidade de um gesto.
Felizmente, já não somos tão irresponsáveis com a nossa memória. Próximo 17 de março, aniversário da capital sergipana, a população de Aracaju recebe o novo Cacique Chá, agora transformado em escola de gastronomia supervisionada pelo Senac. Mais importante, no entanto, é o agasalho finalmente oferecido ao trabalho de um dos maiores vultos das artes plásticas em Sergipe. No Memorial Jenner Augusto, os trabalhos reunidos sob a curadoria do colecionador de Mário Brito.

Os envolvidos estão de parabéns. Longe vai o tempo quando uma espécie de complexo de inferioridade, talvez sugerido pela timidez territorial pontilhada no mapa, aconselhava a negação do sensível sergipano. A mudança de postura - fenômeno que se deu em diversas esferas, notadamente na classe artística e em âmbito institucional - reaproximou a nação Serigy dos tambores da própria aldeia, ao mesmo tempo em que promoveu um diálogo profícuo com as experiências mais relevantes apontadas pela Rosa dos Ventos. Agora, não tem mais cabeça baixa. Ao apalpar a própria face, descobrimos o mundo.

Não por acaso, prédios históricos, abandonados por décadas e mandatos inteiros, foram restaurados ao longo dos últimos anos para abrigar instituições dedicadas à preservação e promoção de nossa cultura. Em pleno funcionamento, o Palácio museu Olímpio Campos e o Museu da Gente Sergipana encarnam a face mais visível de um processo irreversível. O Centro Cultural de Aracaju foi idealizado com o mesmo objetivo.
A gritaria motivada pelas ruínas do saudoso Cacique Chá, sobretudo o desfecho feliz da história, atesta que pegamos um caminho sem volta. Se quiserem permanecer sintonizados com os anseios populares, empresários e gestores públicos vão ter de entender que a paisagem fecundada pelo olhar dos nossos, os palcos e projetos erguidos por força de sopapos e inspiração genuína, são parte essencial das feições locais. O sergipano enfiou o dedo no próprio umbigo e aprendeu a escrever cultura com 'C' maiúsculo.