O povo traído

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Publicada em 22/02/2015 às 00:11:00

* Alberto Magalhães

Precisamos trair os ideais. Isso se faz urgente. Estamos vivendo há séculos em comunidades "civilizadas" sem conseguirmos alcançar um nível satisfatório de realização pessoal. A democracia ainda está no início do regime ideal. Nos moldes atuais é como um corpo que abriga um espírito maldoso: o "sistema" nefando. Precisamos trair os ideais. Não os nossos, mas esses que, convenientemente, têm incutido nas nossas mentes. Devemos fazê-lo no intento de desenharmos nova esperança para a consolidação da igualdade humana no âmbito socioeconômico.
A liberdade conquistada nos chegou como uma esperança frustrada. Não há liberdade real sem igualdade efetiva. A "liberdade" "concedida" ao cidadão pelos regimes modernos lhe dá o direito de reclamar e denunciar. Mas só isso. Mera fachada, propaganda enganosa do chamado estado democrático de direito, que é um conceito jurídico vago na relação Estado/povo. Algo semelhante à situação dos animais: têm a noção da realidade, mas não a faculdade de modificá-la. O resultado é como se alguém passasse da condição de escravo para a de criado. Não sendo obrigado a servir pela força, mas sim pelas necessidades lhe infligidas pelo sistema injusto e manipulador.

Passando de excluído para a condição de semi-incluído: participante no contexto político-social como mero figurante (no exercício do voto), como servo imprescindível (no exercício do ofício público ou privado) e como fonte principal na geração de impostos e tributos para benefício maior das elites dominantes. Modelo definidor da opressão econômica, de muitas e graves consequências, para o trabalhador e o futuro dos seus dependentes. Com muitos direitos legalmente reconhecidos, mas nunca alcançados.
Na dialética Hegeliana o Ser dominado é o "servus", preservado apenas para funcionar como escravo do sistema. Para Hegel aquele que não luta para transformar a realidade coletiva (o vir-a-ser) é um escravo da sua condição (o não-ser). A síntese se forma no devir. Igualdade não é todo mundo poder ter um emprego de salário mínimo, poder passear num shopping num ônibus apertado de gente, poder ir à praia com toda a sua família de mês em mês ou poder viajar para onde os abastados viajam rotineiramente, apenas uma vez na vida.

Igualdade não é ter direito à assistência médica disputando com outros quinhentos pacientes e esperar durante um mês para realizar um exame clínico. Isso é o retrato da essência do sistema político desonesto a que a sociedade está submetida. Já a corrupção não é só desonestidade, pois esta é praticada contra os outros. Corrupção é também traição, porque é sempre cometida contra os seus. Os sistemas se tornam incompetentes porque o foco dos seus dirigentes (e cúmplices na iniciativa privada) não é o povo, mas a criação de mecanismos de fachada legal para obterem gordas vantagens para si e para os membros do seu grupo.
É preciso se levantar contra esse sistema nefasto que é impregnado de mentiras e engôdos e embasado na ignorância ou na inércia das pessoas do povo. Precisamos nos mobilizar para empreender uma revolução no país. Pensar o Brasil à partir dos nossos interesses, em busca de um futuro melhor para todos. Observar onde a gente pode mexer, o que a gente pode mudar em prol da verdadeira dignidade humana. Na sombra da pátria espreita um sistema perverso que mina e sufoca a verdadeira grandeza da nação.
*Alberto Magalhães é funcionário público do Estado de Sergipe.