UM MÉDICO, UM INTELECTUAL

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Publicada em 22/03/2015 às 00:37:00

Mais duas perdas em menos de uma semana. Domingo, falávamos sobre o político Tertuliano Azevedo e o médico Hyder Gurgel, que faleceram.
Agora, há que se abrir um espaço de saudade e reverencia a dois outros exemplares cidadãos que irão nos fazer muita falta. O intelectual Ezequiel Monteiro e o médico Hugo Gurgel.
Aos 90 anos morreu o médico Hugo Gurgel, 5 dias após o irmão Hyder. Hugo obstetra, Hyder pediatra, fizeram da medicina um exercício virtuoso de humanismo. Hugo criou a maternidade Santa Lúcia, padrão em obstetrícia e ginecologia. Maternidade particular, mantida com o que arrecada, mas ele sempre teve um largo espaço reservado ao exercício gratuito e benemerente da sua profissão. Era um desses médicos que não têm hora, nem dia, nem circunstancia, que os impeçam de atender um paciente, não distinguindo entre os que podem e os que não podem pagar. Hugo foi também o professor que sabia, sobretudo, motivar e oferecer exemplos aos seus alunos. Os belos exemplos da sua própria vida.

Ezequiel Monteiro foi a inteligência mais representativa da sua geração. Desde jovem, revolucionário, dividiu-se depois nas contradições de quem não limita o pensamento aos cânones das ideologias, ou aos dogmas das religiões. Foi iconoclasta e religioso, esquerdista e descrente de extremas ousadias sociais, anarquista e fiel cultor das leis e do Direito. Jornalista, advogado, escritor. Contista de surpreendente engenhosidade imaginativa, Ezequiel, como bem lembrou Ivan Valença na sua coluna dominical do Jornal da Cidade, foi compositor tão bom que o perfeccionista João Gilberto fez com ele parcerias.
Poucos sabem, mas Ezequiel, quando pacifista, retornou às pressas a Aracaju, vindo do Rio de Janeiro, onde era aluno brilhante do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB. Motivo: Deu um soco na cara do coronel aviador Gustavo Borges, poderoso integrante do governo de Carlos Lacerda, que andava pelas ruas furando pneus de carros estacionados sobre as calçadas. Ezequiel conseguiu fugir do coronel que não o alcançou na corrida, mas antes, aos 16 anos, não escapou da fúria fascista do almirante Penna Boto, que caçava comunistas em Sergipe. Ezequiel foi trazido de Laranjeiras para Aracaju amarrado no fundo de um Jeep, e entrou na Capitania dos Portos cantando alto a Marselhesa, que, para ele, não era o Hino da França, mas o brado revolucionário da liberdade. O almirante quase morreu de raiva.