3 COTIAS E UM VEADO

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Publicada em 22/03/2015 às 00:37:00

Eram, três cotias e um veado, levados todos na carroceria de uma camionete.
Quem os abateu, constataram os policiais que cercaram o veículo numa operação de guerra, foram os caçadores agora apavorados diante do aparato bélico. Caçador conduz armas, e armas neste país são terminantemente proibidas. Pior ainda: a caça é quase um crime hediondo. Os caçadores presos são pessoas conhecidas e acatadas como cidadãos de bem na cidade de Canindé, onde vivem e trabalham. Os desditosos executores das 3 cotias e do ressequido veado, foram presos em flagrante. Levados a uma delegacia, pagaram fiança de quase 12 mil reais, e acabaram enquadrados em muitos crimes.    Serão processados, dificilmente escaparão da condenação, que poderá ser mais ou menos dura, a depender do critério do juiz, mas o custo da malfadada aventura já lhes pesa nos bolsos.

Há um agravante: cotias e veados estão em extinção em Sergipe. Não por culpa dos caçadores, que, atemorizados, são agora bem poucos. O que faz desaparecer a fauna é o desmatamento, a transformação das árvores da caatinga em carvão e lenha, o uso indiscriminado e abusivo dos herbicidas e pesticidas, nos pastos e lavouras, onde, faz tempo, piaram as últimas nambus. Talvez seja mais fácil prender eventuais caçadores do que reincidentes devastadores da flora, e, por via de consequência, também da fauna.
Os policiais apenas cumpriram a lei, o mesmo que fez o delegado, e deverão fazer o promotor e o juiz.
São as leis do nosso país, onde 3 cotias e um veado (sem demérito de nenhum deles, evidentemente) valem muito mais do que a vida de um jovem de 19 anos, o menino Sávio Barbosa, um ser humano que irradiava um sentimento de paz. Savinho foi trucidado por um bando de adolescentes, entre eles, certamente, alguns menores. Os matadores executaram a macabra tarefa com perversos e bárbaros requintes, como se estivessem num ritual satânico de vingança. Com uma pedra, esmagaram o rosto da vítima, que ficou irreconhecível, perfuraram-lhe o corpo em várias partes usando pedaços de pau, sobre o morto passaram com suas motocicletas, num festim de loucos, comemorando o sucesso da empreitada.
Um dos matadores foi levado a uma delegacia. Assumiu a autoria do crime, não denunciou os comparsas, e está solto, livre, andando para cima e para baixo, no uso e gozo do seu direito de ir e vir.
Detalhe ainda mais sinistro: Já são 3 os trucidamentos, não de cotias ou veados, mas de gente de carne e osso, seres humanos. Três trucidamentos com características idênticas de ferocidade ocorreram no espaço de 4 meses, numa mesma área. Suspeita-se que haja uma quadrilha de serial killers, agindo, mas eles não mataram ainda três cotias e um veado.