FOI ASSIM (1)

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\"Tá bom de mais, amor...tá bom demais!...\"
\"Tá bom de mais, amor...tá bom demais!...\"

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Publicada em 24/03/2015 às 11:29:00

Durante anos, Amélia andava na ponta dos pés ao passar pela sala, sempre lembrada pela mãe de que era uma sala de infelicidade, e aterrorizada, com medo de que algum demônio desconhecido tomasse posse de seu corpo, através da porta fechada. Levou anos para juntar todas as referências ditas pela mãe e concluir que era a sala onde seus pais tinham se separado, em 1982 - após uma pequena e tola discussão. E, segundo as infindáveis expressões de sentimentos, sem ter oportunidade de ratear. Ananias Vieira, o jovem marido de Madalena, morrera atropelado na avenida Hermes Fontes por um veículo nunca identificado, 48 horas após sair de casa, sem rumo certo. Amélia não conseguia lembrar-se dele e muito menos da semelhança que a mãe afirmava, com Tarcísio Meira.

O pequeno apartamento tinha sido coberto de retratos de Tarcísio recortados de revistas. Agora não havia mais fotografia alguma do pai de Amélia, e todos vestígios de Tarcísio Meira haviam desaparecido.
Poucos meses depois da morte do pai, Amélia ouviu sons estranhos, respiração pesada, entrecortada, gemidos vindos do quarto de sua mãe. Apavorada, abriu a porta do quarto com um pontapé, no pressuposto de que sua mãe estaria morrendo. Precisava socorrê-la. A princípio não chegou a compreender o que vira, algo que, agora tinha certeza, nunca se esqueceria.

Sua linda mãe estava montada no colo de um homem, suas costas batidas por uma raio de sol, brilhando como seda pura. As mãos do homem - horríveis, peludas - estavam agarrando, puxando, apertando sua mãe contra ele, a face escondida pelos cabelos de sua mãe, os quais caiam soltos e lindos, sobre seus ombros. Amélia ficou paralisada abrindo a boca, mas sem conseguir emitir um som, estremecendo quando eles estremeciam, o pavor aumentando com a tensão, a sensação de calor que ela podia sentir com os frenéticos movimentos das costas de sua mãe, que parecia estar cavalgando o homem como se ele fosse um cavalo, mais rápido...mais rápido...gritando com insistência: "tá bom demais, amor...tá bom demais!..."

De modo rápido, a terrível cavalgada terminou e - como se alguma coisa tivesse sido arrancada deles - seus corpos tornaram-se flácidos e eles agarravam-se fracamente, um ao outro. O homem levantou devagar deu rosto para olhar direto nos olhos de Amélia. E  largou a parceira tão de repente, que ela caiu no chão.
Só então , Amélia compreendeu tudo: sua mãe estava literalmente pelada. A visão dos seios pesados cheios de veias azuis, do tufo de pelos negros melados e crespos entre as pernas roliças, de sua nudez total, sacudiu Amélia do seu silêncio traumático. Ela ouviu-se gritando, gritando, até que o homem bateu-lhe tão rapidamente que sua cabeça chocou-se contra a porta.    
- Não faça isso Edmundo, não machuque minha filha. Ela está histérica. Deixe-me a sós com minha menina, por favor!

.............
As coisas nunca mais foram as mesmas. Em um ano, Amélia testemunhou a transformação de sua mãe em uma sombra que olhava e esperava. Olhava por trás das cortinas a chegada do carteiro, esperava pelas cartas de Edmundo, que era sargento do exército. Ele nunca voltou. E Madalena passou a sair todas as noites, voltando para casa acompanhada por tipos estranhos, todos muito másculos e um tanto rudes. Amélia, não suportando aquela promiscuidade, resolveu sair de casa. E foi morar no Recife, com sua melhor amiga Juliana...