Entre Rios e Reis há Rocha

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Publicada em 27/03/2015 às 11:20:00

* Feliciano José

Não há nada de hodierno na locução que define monólogo como tarefa árdua. Se fazer arte, especialmente aqui, é algo árduo, atuar em monólogo supera qualquer expectativa de espanto. Esta modalidade de atuação (o monólogo) nos parece natural pelo fato de ser prática comum entre parte dos artistas dramáticos (no sentido amplo da palavra). Porém, o ator Ney Latorrca brada afirmando que não possui (ele) a menor compreensão sobre como alguém se propõe à tal empreitada. Segundo o próprio, ele não se vê, jamais, atuando solitariamente sobre um palco; para este ínclito ator, esta tarefa é desumana e cruel. Parece que é verdade.

A peça para teatro "Os Olhos Verdes da Neurose", encenada mais de uma vez por Denys Leão, torna-se espetáculo a partir da sua característica-primeira, que é a sua modalidade. Ademais, há a estrutura e a forma dadas àquela obra dramatúrgica. Nela, o seu autor José Expedito Marques enreda de modo dinâmico a história de uma louca. Este monólogo não é breve ou sucinto; a sua extensão é consideravelmente longa, mas os intérpretes de Denys Leão não hesitaram. No início deste milênio, o saudoso Luiz Carlos Reis representou este texto; no início desta década, foi a vez de Ariane Rios interpretá-lo; agora, Clarice Rocha atua em nova versão cênica dada à peça por este diretor de sublime versatilidade e de concepções autônomas e ricas.

Em duas destas montagens, o cenário recebeu concepções idênticas, com luz e figurinos distintos; enquanto a sonoplastia em Clarice apenas assemelha-se àquela utilizada em LCR. Além da concepção geral do espetáculo há também a especificidade do trabalho de atuação. Com Reis via-se grande dramaticidade com elevado viés cômico e ênfase no aspecto neurótico da personagem. Em Rios notava-se a leveza: uma louca calma e sonhadora, às vezes, triste, mas muito divertida. Já em Rocha vê-se a fusão destas duas concepções anteriores; a interpretação dela navega Rios e Reis, parcial e simultaneamente. Além destas três encenações dirigidas por Denys, ele ainda realizou, neste ínterim, uma montagem meramente estudantil deste texto.

Na atual versão cênica de "Os Olhos Verdes da Neurose", do grupo Nós e a Plateia, o caráter impresso em determinados e grandes momentos do espetáculo dá à interpretação de Clarice Rocha marca própria. Aos 17 anos de idade e em seu primeiro espetáculo profissional, Clarice demonstra grande potencial, ainda que por lapidar, evidentemente; mas, por princípio, devastador. Há momentos, porém, em que a sua atuação oscila além do necessário ao gráfico dramático que guia a atenção da plateia e controla a emoção do público. Mas, estes átimos de ínfima envergadura deverão ser sanados com brevidade inferior às expectativas. Meritório, no entanto, é o fato desta adolescente estar interpretando uma personagem de mais de trinta anos de idade.

Nota-se, ainda, a título de detalhe, que a indefinição do olhar da personagem, ao demarcar a "presença" do médico e do delegado, é recorrente. Melhor seria "situá-los" no palco em vez da plateia. Este mesmo trato se estenderia ao marido e à criança ali arregimentados. Há momentos de grande entrega, mas também há momentos em que a atriz/personagem nos parece levemente "policiada" em seu gestual. Porque, mesmo considerando o artificialismo inerente à arte, há atitudes não muito condizentes com a psique daquela senhora. Mas é por volta dos 40 minutos de encenação, sempre em gráfico crescente, que se dá o ápice; quando a atriz explode em emoção e a personagem já não sabe se determinado ocorrido se deu no dia de finados ou se era carnaval. Para ela, horror, maravilha e maravilha-de-horror são sinônimos.

Nesta montagem, vê-se, pois, que a ambientação cênica, toda no branco, dá à iluminação do espetáculo a possibilidade de reforçar a emoção de cada cena, de cada sentimento da personagem e, também, de transportar a espectadora (a plateia) para aquele universo tão distante e tão próximo a nós; que é a loucura nossa de cada dia. A loucura que, nem sempre, nos damos conta dela, frente a tanta modernidade - rica em sua aparência, mas débil em sua essência. A sonoplastia, pautada em temas, interliga as cenas e rege a emoção de cada uma delas; tanto em relação ao público quanto à intérprete. Em Rios, o cenário expressava realismo; em Rocha ele resgata a subjetividade do suprarrealismo que havia em Reis. "Os Olhos Verdes da Neurose" decantam as artes cênicas sergipanas.

* Feliciano José, crítico de teatro