O clichê de sempre

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Sexo vende
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Publicada em 28/03/2015 às 00:51:00

* Anderson Bruno

Saiu de cartaz nessa última semana a tão aguardada versão cinematográfica do romance "Cinquenta Tons de Cinza" da escritora E. L. James. Óbvio sucesso de bilheteria no mundo inteiro, o longa-metragem faz suscitar o questionamento sobre a qualidade das adaptações literárias para o cinema.
O filme "Cinquenta Tons de Cinza" (Fifty Shades of Grey, Sam Taylor-Johnson, EUA, 2015, 125min), lógico, possui um atributo técnico interessante. A fotografia de Seamus McGarvey, por exemplo, transpõe as tonalidades acinzentadas que dá título ao livro. A ambientação da trama é na cidade americana de Seattle, local conhecido pelo seu clima eternamente nublado. A paleta de cores na cenografia de Laurel Bergman se aglutina na manutenção dessa coloração.
O problema da produção dos estúdios Universal está na transposição das palavras do erótico romance para as telas. O engraçado é perceber que o trailer conseguiu captar toda a aura de mistério e jogo de sedução presentes no livro. O filme não.

Seu protagonista Christian Grey (Jamie Dornan) - um jovem bilionário de 28 anos - é descrito como um homem reservado, intimidador e com bastante 'sex appeal'. Com exceção da última característica, seus outros predicados desaparecem na versão para a sétima arte.
A literatura desta história em específico é bastante descritiva. Anastasia Steele (Dakota Johnson) é a personagem feminina principal. Logo no início ela tem contato com o empresário para uma entrevista. Toda a atração dominadora e inquisitiva de Christian - contrapondo ao desejo e à retração de Anastasia - é reproduzida à exaustão (com certa redundância até) nas palavras de E. L. James. No longa tudo isso se perde. Um dos pontos mais fortes do romance (o enigma particular e envolvente de seu personagem principal) é relegado a escanteio transformando-o num ser de fácil acessibilidade psíquica. O jogo de olhares, pensamentos e dominação - próprios do chamado 'macho alfa' - foi perdido na versão para a telona. O que ficou foram apenas diálogos simples emoldurados numa trama rasteira a ressaltar apenas uma adaptação feita pelo oportunismo do sucesso literário da obra.
A química entre os dois atores se estabelece, mas não sustenta uma qualidade fílmica capaz de transformá-lo num esteta da cinematografia erótica, romântica, literária ou qualquer outro adjetivo pertinente às suas pretensões artísticas (ou mercantis). Na verdade, o problema já começa a partir de sua obra original, um livro muito bem sucedido pela sua conjugação sexual.
Emoldurado num grande clichê (a moça tímida e virgem, o jovem rico e malhado, dentre outros) essa literatura conseguiu convergir uma demanda vinculada à questão sexual feminina e suas fantasias. A mulherada enlouqueceu com suas descrições sexistas e especificidades afrodisíacas como a "sala de jogos" e a já clássica frase "Eu não faço amor. Eu fodo... com força" proferida por Grey. O que se pode entender a partir disso é mais um capítulo na história mundial a vincular o sexo como um espelho da sociedade contemporânea. Tudo bem que há uma grande estratégia de marketing a elevar tanto o sucesso do livro quanto do filme; como também o fator de o foco da estória estar numa relação a envolver erotismo (sexo sempre vende bem desde que o mundo é mundo). Mas é impressionante o envolvimento do leitor (a) e ou espectador (a) no universo escrito por E. L. James. Até porque não há nenhuma estupenda novidade digna de menção dentro do contexto dessas duas personagens. E aí deu nisso: de repente os astros se alinharam e promoveram o sucesso das fantasias eróticas na cabeça de milhões de pessoas mundo afora. No final das contas o romance, principalmente por seus aspectos descritivos, se sobrepõe à versão cinematográfica.
Há outros dois livros intitulados "Cinquenta Tons Mais Escuros" e "Cinquenta Tons de Liberdade". Junto a "Cinquenta Tons de Cinza" compõem uma trilogia. Estes livros subsequentes também serão adaptados para o cinema.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual