De vez em quando

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Publicada em 02/04/2015 às 10:14:00

* Rangel Alves da Costa

A mesmice entedia. Fazer sempre o mesmo enferruja o poder de mudança e a vontade de transformar, de fazer diferente. Urge sair da rotina, abrir outras portas, caminhar outras estradas, sonhar diferente.
Ora, toda pedra grande é avistada sempre tristonha porque não sai do lugar. O ferro pesado corrói e vai sumindo porque sempre permaneceu naquele lugar. A bela flor vai murchando e morre sem encantar corações porque não saiu do lugar. É preciso, pois, mudar para se renovar.

Por isso de vez em quando há que se fazer diferente, arriscar, modificar atitudes, buscar outras possibilidades. A roupa precisa ser trocada, a casa varrida e arrumada, os móveis desempoeirados, o jardim aparado, e por que não fazer o mesmo com você?

O sol se esconde para a lua aparecer. Um dia é de céu aberto e outro com nuvens carregadas. O sol queima tudo, mas depois a chuva vem. A primavera se transforma em outono, as flores nascem e morrem, e as folhagens também.
Então por que também não faz diferente, deixa de ser noite e experimenta o dia, deixa de ser lágrima e tenta um sorriso, sai do quarto fechado para abrir a porta? Talvez você não conheça a cor da manhã, as ondas chegando à areia, a última revoada do entardecer, o perfume da brisa debaixo da lua.

Então tente mudar, tente fazer diferente, ser outro sem sair de si mesmo, voar sem sair do chão, sonhar acordado. E não há tempo nem idade para ser passarinho, para fazer o que o desejo pede, para perfumar o corpo tomado das durezas da solidão. Porta foi feita para ser aberta, estrada para ser caminhada. E os pés, as mãos e os desejos para serem guias.

Por isso, de vez em quando tome banho de chuva, no meio da rua de braços abertos, deixando as águas se fartarem em você. Cante, pule, corra, chame alguém para valsar na chuva, celebre o momento como uma infância que nunca é tardia. Quando estiver sozinho no quintal agora murado da casa, corra pra debaixo de uma biqueira com a nudez mais sem roupa que existir.

De vez em quando leia um livro. Muita gente sequer passa da primeira página, mas tente ir dialogando com a história página a página. Também leia e escreva poesia. Todo mundo é poeta e tem versos guardados no caderno da mente. Então escreva tudo no papel, mostre seu amor ou sua desilusão, sua esperança ou sua solidão.
De vez em quando suba à montanha e lá encontre o templo de sua fé. Experimente meditar lá no alto, tenha olhos para o que acontece ao redor, converse com o silêncio, reflita sobre sua condição humana. Certamente encontrará uma feição que chega na luz e uma voz que fala pelo sopro da brisa.

De vez em quando vá conhecer enfermos, visitá-los no seu leito de solidão. Não há remédio mais eficaz para um doente do que um gesto atencioso, uma palavra amiga, um instante de compartilhamento. Mesmo que a saúde seja sonho sem volta, mais ainda ele necessitará de uma presença que valorize cada instante que lhe resta da vida.
De vez em quando vá caçar borboletas, correr pelos campos, caminhar pela mata, colher flores de beira da estrada, conversar com bichos e passarinhos. Sente no alto de uma pedra e com ela converse como bons amigos. A pedra escuta, tem sentimentos, e logo chegará o sono para você repousar ali mesmo. Então virá o sonho com a voz da pedra e ela dizendo: Desejos são asas e asas foram feitas para o voo.

De vez em quando ouça as lições dos mais velhos, preste-lhes atenção nos seus modos de vida. A sabedoria passada é livro eterno e em cada um encontrará o que tanto precisa saber. E retribua com a promessa de que chegará àquela idade com a mesma flor cheia de vida que avista naquele jardim de muitas primaveras e outonos. Sublime é o encontro entre os primeiros passos da estrada e aqueles que já conhecem o caminho.
De vez em quando faça diferente e ouça quem lhe deseja falar, fale o que deseja que ouçam. Diga sim e diga não, aceite, conteste, reconheça o erro ou lute pela prevalência de sua verdade. Mas não esqueça que todo ponto de vista é apenas um ponto de visão e que há um horizonte bem maior que pode estar com a razão.

De vez em quando faça assim, faça diferente. Acenda a luz do quarto e a que está em você. Abra a janela e aviste o mundo. E siga a nuvem que tem o seu nome.

* Rangel Alves da Costa é advogado e escritor
blograngel-sertao.blogspot.com