Evento homenageia Abdias Nascimento

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Publicada em 02/04/2015 às 10:29:00

Abdias Nascimento sempre esteve mergulhado na arte e cultura, utilizando-as como instrumento político. Assim também foi a homenagem prestada pelo mandato da deputada Ana Lúcia a este grande lutador do povo: marcada pela arte engajada e pelo resgate da cultura afro-brasileira. Quem abriu o seminário foi o grupo de percussão Haussas, da comunidade quilombola urbana Maloca, no Bairro Cirurgia, em Aracaju. Ao som dos tambores dos percussionistas Alan de Xangô e João Cocó, a bailarina Cleanes Maia também apresentou uma bela performance em homenagem a Yemanjá.

O Teatro do Museu da Gente Sergipana ficou lotado de militantes sociais, professores, estudantes e população em geral que foram prestigiar a atividade, e participar da palestra da assistente social, militante do movimento negro e professora doutora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Matilde Ribeiro. Conhecedora do tema, Matilde Ribeiro apresentou uma profunda análise da contribuição de Abdias para a política, a cultura e para a construção do movimento negro brasileiro, desde sua infância e juventude, passando pela sua trajetória de artista engajado com a criação do Teatro Nacional do Negro, pelo exílio nos EUA durante a ditadura militar, até o período de sua atuação na política institucional, como gestor público e parlamentar engajado.

"Abdias, que nasceu apenas 26 anos após a abolição da escravatura no Brasil, mostrou, com muita naturalidade, o que é ser negro num país que aboliu, mas não incluiu. Ele não mediu esforços em chamar a atenção da sociedade, dos governos e do Estado brasileiro para a necessidade de passar a limpo a história brasileira de perpetuação do racismo. Desde sempre, ele nos ensinou que a luta pela liberdade e justiça no Brasil, do ponto de vista racial, começou desde que o primeiro negro, que a primeira negra chegou aqui na condição de seres humanos escravizados. Nessa condição, as desigualdades foram se perpetuando", destacou a pesquisadora da Unilab, Matilde Ribeiro.

Ana Lúcia destacou que o homenageado foi um grande artista engajado, militante social de vanguarda, intelectual renomado internacionalmente, pan-africanista, militante trabalhista, político e parlamentar. "Abdias Nascimento tem vasta produção, mas todas a sua atuação convergiu para um único sonho, uma única luta: defender a liberdade de negros e negras no Brasil. Seu papel protagonista e corajoso de desafiar a elite deste país foi tão importante para os negros e negras brasileiros, que sua luta e sua história se confundem com a história do movimento negro no Brasil", destacou a parlamentar.

Racismo institucional - A pesquisadora Matilde Ribeiro contou que Abdias Nascimento, quando estava em vida, chamou sua atenção para o racismo institucional e para o papel diferenciado dos agentes públicos que construíram sua vida política através da militância social. "Ele dizia que o racismo não nasce do ímpeto de cada pessoa. É o Estado brasileiro, junto com a sociedade, quem produz o racismo e, por isso, nós não podemos nos iludir que por dentro destes espaços conseguiremos fazer uma verdadeira revolução. O Estado produz e promove o racismo quando ele nega a condição de cidadania aos negros e negras no Brasil, quando ele não executa as políticas públicas e as leis em favor da população negra. Por isso Abdias dizia que nós precisamos ter cuidado para não adotarmos posturas como gestores públicos que vão de encontro a nós mesmos", apontou.