Agradecendo a amigos e voando no Teco-teco

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 07/04/2015 às 16:05:00

* Raymundo Mello

Nunca tive a oportunidade de trocar um cumprimento com o Doutor Luiz Eduardo Costa, embora o conheça há muitos anos; identifico-o como o filho do Advogado e Jornalista Paulo Costa, que conheci, era meu cliente na compra de passagens aéreas quando eu trabalhava na Real Aerovias e, algumas vezes, entreguei bilhetes de passagens em sua residência, ali na rua Lagarto com Barão de Maruim e Boquim. Então, eu conhecia, sabia quem era aquele jovem, sempre forte, com cara e jeitão do estudioso que deve ter sido. Isso já faz uns 50 anos.

Mas nunca trocamos sequer um cumprimento; registro que por bom tempo ele intermediou, sem conhecermo-nos, alguns artigos que escrevi, sempre nessa área de 'Memórias', para publicação aqui mesmo no Jornal do Dia. Eu escrevia os artigos, digitava-os e os enviava gravados em CDs, sempre com um exemplar do texto impresso anexo, para ele saber o que eu estava dizendo; e ele, para minha alegria, tomava os cuidados para que aquelas colaborações chegassem à editoria do jornal. O primeiro intermediário foi o escritor, meu amigo pessoal, Murillo Melins - amigo há mais de 75 anos, amizade de famílias, os Mello e os Melins.

Cabe mais uma explicação: o meu elo principal, inicialmente com a Gazeta de Sergipe - o jornal do grande homem de imprensa Orlando Dantas - e, posteriormente, com o Jornal do Dia, era o escritor/pesquisador Luiz Antônio Barreto, que me deu algumas orientações e me disse: "Raymundo, a maioria de seus escritos estão sempre no campo das 'Memórias'; assim, subscreva-os com o título de Memorialista". Eu, na ocasião, lhe perguntei: "Luiz, e o que é que eu digo quando me perguntarem quem me deu esse título?". E ele, com aquele seu jeito de tornar simples coisas difíceis, me respondeu: "Diga que foi Luiz Antônio Barreto, do Instituto Tobias Barreto, quem lhe outorgou o título"; e eu até hoje faço isso. Quando Luiz faleceu, conversando com Murillo Melins, disse-lhe que ia deixar de escrever as 'Memórias', e ele respondeu-me: "Não deixe de escrever não. Traga para mim que as entrego a Luiz Eduardo Costa, que é homem de prestígio no Jornal do Dia, e seus textos continuarão a ser publicados"; dito e feito. Até que meu filho manteve contato com o caro Gilvan Manoel, Editor Geral deste órgão de imprensa, líder há 10 anos, que me abriu as portas do jornal e publica meus modestos textos sobre vários temas. Sou grato a todos eles.

Pois bem! Em seu caderno semanal no Jornal do Dia, edição n.º 3.537, de 29 e 30 de março de 2015, Luiz Eduardo registra em "A Petrobras e o copiloto maluco", após breve comentário sobre as "roubalheiras" que invadiram a empresa patrimônio do Brasil (ah!, como "o petróleo é nosso" era tão emocionante, mas levou muitos democratas a reclusões e outras sanções), e comenta o "não sabia de nada do copiloto" da subsidiária da Lufthansa que jogou o Airbus-300 ao solo, matando 150 pessoas (inclusive o próprio, que estava com atestado médico e psicológico determinando sua incapacidade emocional e afastando-o das atividades de aeronauta) e faz relato sobre publicação na revista 'Anhembi', n.º 6, de junho de 1951, sobre os cuidados da nossa "Real Aerovias" com candidatos a copiloto das suas aeronaves DC-3/C-47 para 24 passageiros e 4 tripulantes, destacando que eles tinham, inclusive, a "alma testada". É um texto interessantíssimo, escrito por pessoa inteligente, estudiosa, e que me parece ser amante da aviação civil, se não for um brevetado experiente.

O texto de Luiz Eduardo me trouxe à memória dois tripulantes da "nossa Real Aerovias" - um, radiotelegrafista de voo, Bento Celinato Mendes Aguiar, o outro, comissário de bordo, Vinícius Bindo Guimarães. Eles desejavam mudar de funções, candidatarem-se a copilotos, com todos aqueles cuidados que a companhia exigia, a partir de 200 horas de voo em aviões de pequeno porte, pilotando e fazendo aquela série de exercícios necessários para então, devidamente documentados e com seus exames de saúde em dia, solicitarem autorização junto ao DAC - Departamento de Aeronáutica Civil, para 2.000 horas como copilotos, habilitando-se a comandantes.

O primeiro, Bento Celinato, faltava poucas horas em monomotor leve e em poucos dias fez a complementação, habilitou-se e chegou a comandante. O segundo, Vinícius, precisava de bem mais horas de voo solo e queimou 15 dias de férias aqui em Aracaju, foi nosso hóspede e, durante cerca de 13 dias, voou o que foi possível, pelo tempo e valor das horas de voo pagas ao Aero Club de Aracaju. Também habilitou-se, esteve copiloto por algum tempo até que foi promovido a comandante, tendo sido examinado pelo Coronel Afonso, do Ministério da Aeronáutica (FAB), autoridade que visitava sempre o seu amigo Dr. Carlos Firpo, médico, político, e que foi cogitado a candidatar-se a Governador do Estado de Sergipe, mas, infelizmente, não chegou a ter seu nome colocado à disposição do eleitorado.

Uma manhã de domingo, Vinícius, meu hóspede, convidou-me para fazer um voo de meia hora no Teco-teco do Aero Club. O meu trabalho do domingo de manhã havia terminado no aeroporto e não teríamos outro voo da Real naquele dia. Aceitei. O voo estava ótimo, manhã de sol, sobrevoando a praia de Atalaia e outras áreas. Lá pras tantas, eu, sentado no banco da frente, senti o avião levantar o nariz e ir subindo, subindo, subindo, até que deu a impressão que a força havia terminado; a rotação da hélice reduziu ou foi reduzida a zero, e aí o avião virou o nariz pra baixo, começou a precipitar-se rumo ao oceano e depois fez uns três ou quatro parafusos no espaço, e eu, confesso, pensei que ia morrer; aí, o avião voltou ao normal, o voo foi nivelado e eu virei a cabeça pra trás e, aos gritos, dizia: "Me leve de volta, leve este avião, em paz, pra terra, pelo amor de Deus!".

O meu amigo Vinícius tentou me dizer que a manobra tinha sido um 'looping', sob controle, mas eu só sabia dizer: "Pelo amor de Deus, me leve pro campo. Pelo amor de Deus...".
Não tenho notícias desses dois velhos amigos, mas a memória me trouxe a imagem deles. Bento, tranquilo, Vinícius, alegre, jovial; dois comandantes da "nossa Real Aerovias".

*****

E.T. - Abraço o amigo e assíduo leitor, competente Radialista e Professor Vilder Santos, que aniversariou ontem (06/04).

* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br