Sem dever nada a ninguém

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Artistas convidados não se fizeram de rogados
Artistas convidados não se fizeram de rogados

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Publicada em 07/04/2015 às 16:28:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Embora a premissa do projeto Zons siga intacta, a ambição de fazer música de verdade sem ficar devendo nada a ninguém não passa,  hoje, de um ponto de partida. Duas edições bastaram para transformar o Festival num ponto de convergência. Da reunião de forças dedicada a um registro audiovisual cuidadoso, centrado no momento singular vivido pela música parida na aldeia, nasceu uma espécie de ferramenta a serviço da criatividade local em diversas frentes e segmentos. Os shapes customizados, prontos para exposição no Espaço Cultural Yázigi, provam o argumento.
Quinze artistas de mão cheia, entre emergentes locais e convidados de outros estados, foram convocados para personalizar um pedaço de tábua e não se fizeram de rogados. O resultado poderá ser conferido próxima quinta-feira, 09, com direito a pocket show da instrumental Café Pequeno.
Segundo o fotógrafo Victor Balde, um entre os muitos responsáveis pela empreitada, o projeto Zons, a exposição dos shapes e o leilão a ser realizado com os trabalhos reunidos na mostra, com renda revertida para a Adasf, consistem em um investimento a fundo perdido. "Esperamos muito que o espírito coletivo vá se espalhando aos poucos. É um novo modo de ver o todo".

 

Jornal do Dia - A primeira edição do Live Painting promovido pelo Zons contou com o respaldo de nomes já reconhecidos no cenário das artes visuais sergipanas (Gabi Etinger, Fábio Sampaio e Cachorrão, só pra citar os que me vieram à lembrança). Desta vez, ao contrário, eu não conheço nenhum dos convidados para customizar os shapes a serem expostos e leiloados pelo Festival. Ignorância minha? Houve alguma espécie de curadoria?

Victor Balde - Foram convidados nove artistas locais e seis de outros estados. A maioria é de nomes emergentes na cena sergipana. Estes foram contatados diretamente. Mas como tínhamos a intenção de abrir espaço para mais gente, lançamos uma espécie de edital nas redes sociais do Zons e ficamos muito felizes com a quantidade de portfólios enviados em resposta. Caso do local Canijan Oliveira e de Eti Pellizzari e Marcelo Pelica, do Paraná.

JD - A receita gerada pelos shapes customizados durante o Zons 2013 foi revertida para o Instituto Canto Vivo e viabilizou uma ação de reflorestamento da Mata Atlântica em Campo do Brito. Agora, a grana gerada pelo leilão será revertida para a Adasf. A preocupação social manifestada pelas ações do Zons ainda é novidade pelas bandas de cá. Vocês se espelharam em algum evento parecido? Qual o gatilho que despertou a vontade de extrapolar os limites do evento puro e simples?

Balde - A inquietude e o gás de criar eram sentimentos latentes dentro de nós a muito tempo. O Zons foi o laboratório por meio do qual pudemos começar a testar algumas fórmulas para dar materialidade a tanta vontade. É resultado, também, das vivências em festivais nacionais e gringos, a exemplo do SWU, Universo Parallelo, Rock in Rio, Paléo, Gurten, etc. Desde quando decidimos criar um festival, tivemos como prioridade fazer algo diferente do que já tinha sido feito por aqui e também algo que fosse além do entretenimento, pois, como já vivenciamos a cena a algum tempo, é perceptível o crescente número de eventos na cidade, mas até o momento a gente não conhecia algo que englobasse tantas áreas artísticas, culturais e sociais como o Zons.

JD - O Festival surgiu no embalo do DVD Zons, um registro audiovisual com cinco bandas locais financiado de maneira colaborativa. Um marco. O espírito colaborativo, a premissa de fazer arte sem ficar devendo nada a ninguém, fizeram história na aldeia. Em sua opinião, o Zons colaborou de algum modo para inspirar uma nova postura na relação muitas vezes viciada entre artistas, financiadores e público? Já foram colhidos frutos?

Balde - O ego é muito presente no meio artístico e musical. Aqui e no resto do mundo. Apesar disso, investimos em processos com retorno a longo prazo e esperamos muito que o espírito coletivo vá se espalhando aos poucos. É um novo modo de ver o todo. Não queremos ser prestadores de serviço. Nosso público sabe que, ao pagar pelo ingresso em alguma de nossas atividades, estão ajudando a construir um novo projeto que não é de uma banda ou de um grupo de teatro e sim um projeto aberto a qualquer pessoa com vontade de somar. Exemplo disso é o papel assumido pela banda The Baggios no Zons. Convidada para tocar, em 2013, seus componentes se tornaram membros permanentes e ativos no projeto. Julico fez a edição do primeiro DVD do Zons e Perninha se tornou o nosso diretor de palco, desde então.
Ainda não temos autonomia para colocar em prática todas as nossas ideias, mas seguimos trabalhando firmes para conquistar nossos objetivos. Os frutos mais importantes vão surgindo aos poucos. Temos material de altíssima qualidade pra apresentar em qualquer lugar do mundo e o reconhecimento da cena independente, interessada em saber como Zons funciona e tomar parte na história.

JD - Entre os desafios impostos a um evento com o porte do Zons em terra de cacique, a continuidade talvez esteja entre os mais preocupantes. O respaldo conquistado em duas edições facilita novas investidas, ou vocês são obrigados a começar do zero a cada nova empreitada? Já dá pra botar fé em uma nova edição Zons, em 2015?

Balde - Pensamos que esse lance de começar do zero seria apenas no primeiro ano, mas não as dificuldades persistem. Em 2014 o problema era a Copa do Mundo e as Eleições.
Em 2015 o problema é a crise econômica nacional. São fatores que atrapalham bastante o processo de negociação com os patrocinadores. Pelo andar da carruagem, 2013 ainda vai ter sido o nosso melhor ano nesse quesito de arrecadação com patrocinadores. Mas sim, haverá a terceira edição do festival. Já estamos em fase de pré-produção, mais uma vez.