FOI ASSIM (3)

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NÉLIA SENTIA-SE COMO UM BEBÊ ERÓTICO
NÉLIA SENTIA-SE COMO UM BEBÊ ERÓTICO

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Publicada em 07/04/2015 às 16:33:00

Quando tudo tinha começado? Talvez no primeiro dia em que se encontraram, o dia em que Jonas voltara de sua fazenda, em Lagarto, no centro-sul sergipano. Olhando para trás, Nélia convencera-se de que sua presença tinha sido perturbadora e desorientadora desde o começo, obrigando-a a trabalhar com afinco na loja de produtos agropecuários que os dois mantinham em Aracaju. Podendo assim fingir sua total devoção a Jonas.

Na sacada do seu apartamento, na avenida Beira-Mar, ao olhar o céu azul sem manchas, Nélia lembrou-se, como sempre fazia, de como tinha temido a volta de Jonas. Temia que ele descobrisse que ela tinha um amante, um jovem de apenas 21 anos, o Lucas, filho do zelador do prédio, mas com um futuro radioso - ela acreditava - já que estava no último período de medicina, na Faculdade Tiradentes. O pai, com o seu minguado salário de zelador, fazia das tripas coração para manter o filho numa faculdade particular. Nélia ficava imaginando como isso era possível, até descobrir que Lucas, por ser precoce e superdotado em inteligência, conseguira uma bolsa de estudos. Além de inteligente, Lucas transpirava vitalidade, entusiasmo, honestidade, perseverança. Era o tipo de homem que, apesar de pouca idade, ela poderia estar vendo na televisão, fazendo história, como Alan Shepard, um pioneiro da era espacial. Lucas era um pioneiro na terra, em alguma desolada parte do Nordeste Brasileiro. E um belo espécimen do homo sapiens. Resistir aos encantos de Lucas, ela jamais saberia.

Nélia tinha feito, aos 25 anos, um surpreendente e "feliz" casamento com Jonas, quinze anos mais velho. Agora, ela fechava os olhos dizendo a si mesma que um dia, já divorciada, faria um outro casamento - este sim, verdadeiramente feliz - , desta vez com Lucas. Se ela o tivesse encontrado primeiro, nunca teria havido Jonas. Como Nélia ansiava por esse dia! Mas, existia também em sua vida, Iolanda que parecia mais homem do que mulher. Quando Iolanda dizia "vire-se", Nélia obedecia cegamente. Sim, porque havia uma nota de ordem em sua voz que não podia ser ignorada. Cada poro de Nélia latejava de excitação enquanto obedecia.

A lembrança da primeira vez com Iolanda, voltou forte, tão forte, que ela deixou de pensar em Lucas, que acreditava ser o verdadeiro amor de sua vida. Quando ficava com Iolanda, Nélia se sentia como um bebê erótico. Não, ela não queria pensar em Iolanda, agora, era um pensamento terrível, enlouquecedor. Ela pôde sentir seu pânico crescer, um pânico cego, só de pensar em viver sua vida com Lucas e mais ninguém. "Que Jonas e Iolanda fossem para o quinto dos infernos!", vociferou dramaticamente.

De repente a campanhia toca, ela atende correndo. É ele, o Lucas que surge diante da soleira da porta como a aparição de um anjo redentor. Beijos e abraços em clima de novela global, até que ela sente o corpo de Lucas estremecer, enquanto indaga, preocupado:
- Você está cansada, amor? Ontem, você me disse que sua menstruarão ainda não havia chegado, estava atrasada.
Lucas não conseguia se acostumar com o fato de que as mulheres modernas podiam usar calcinhas minúsculas e biquínis menores ainda, mesmo com o sangue escorrendo.

_Não, querido, não estou cansada. E sou toda sua. Decidi isso agora. Quero levar você para um lugar que é só meu. Ninguém nunca esteve lá e não é tão longe daqui. Você topa?
- Com você eu vou até o fim do mundo. Só não posso deixar de estudar. A minha formatura, você sabe, é no ano que vem.
- Claro que não, querido.

Doze horas depois, os dois estavam numa casinha modesta, mas aparelhada de todo o conforto, no meio de uma mata fechada. Não mais Jonas e muito menos Iolanda. Nélia ouviu o seu coração. Eram ordens de uma espécie muito diferente e muito mais convincente do que aquelas dadas anos atrás, inconsequentes e frívolas.