Quem vive de passado é museu

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Publicada em 08/04/2015 às 09:34:00

* Lelê Teles

Recebo pelo Facebook a imagem de um museu na Europa. Jovens em idade escolar, sentados em um banco, estão concentrados em seus smartphones, indiferentes à uma enorme obra do grande Rembrandt que adorna uma parede.

Acham que essa imagem denuncia a alienação dos jovens, a burrice anunciada, a falta de interesse pelas coisas "grandes" da nossa cultura.
Isso, claro, é apenas julgamento de valor, ou melhor, choque de valores. Querem atenção, mostrem um mundo novo e interessante aos jovens. Muitos garotos não estão nem um pouco interessados em ficar numa fila à espera de uma chatice que é adorar um fetiche aprisionado numa moldura.

Rembradt viveu na era das imagens estáticas. Vivo fosse, estaria dentro de um smartphone enchendo de imaginação os olhos da meninada.
Vivo fosse, Salvador Dali faria grafites em avenidas movimentadas, não pelo fato de que com ele a imagem se movimentasse, mas pelo imperativo categórico de que as pessoas passariam o tempo todo pela imagem, daí o movimento.

É preciso entender que a arte se modernizou, ela saiu da monocromia das cavernas e se prendeu, colorida, a uma moldura em palácios, salões e catedrais.
Ela modificou o mundo, mas também foi modificada por ele.
O espírito do tempo é a alma do homem social.

O indispensável linguista genebriano, Saussure, nos ensinou lá atrás que a diacronia é a forma mais correta de análise. O tempo passa e a gente tem que passar com ele. É o mesmo princípio do rio de Heráclito.
O diacronismo serve também para análise da sociedade e da cultura, a antropologia utilizou a análise diacrônica nos estudos culturais.
Útil é para a pedagogia.

Ficar preso à sincronia, em estado de redoma, e achar que os meninos de hoje não entendem a arte de outrora, nem querem entender porque não se interessam, é a forma cretina de não admitir que os homens de ontem é que não estão conseguindo compreender os meninos de hoje.

O ser humano, desde sempre, tem sede de conhecimento, vontade de saber, vontade de potência, por isso se comunica com tantos sinais, tantos elementos verbais e não verbais;
desde sempre o homem tem inclinação para o aprendizado criativo e interativo, na comunicação rupestre, a parede da caverna era tela cinema, página de livro, quadro negro...;
para Narciso, o espelho d'água era um touch screen.

Mas é preciso não perder o fio da história, desde os tempos mais remotos que o homem reinventa linguagens para dizer as mesmas coisas, dizendo-as, por isso mesmo, de forma sempre diferente e criativa.
Por isso, há muito, o jovem busca uma escola que não o trate como um débil mental, porque isso a sociedade dos adultos já o faz.

Quando se inventou a escrita, lá na Suméria - onde hoje é o Iraque - a humanidade deu um enorme salto. Todas as culturas letradas, a partir dali, passaram a educar os seus cidadãos pela grafia.
Hodiernamente, os povos ágrafos, com seus gritos, sua educação oral, são tratados, pejorativamente, como primitivos, porque se utilizam somente de formas primárias de comunicação.

Pois bem, o quadro negro é o buraco negro da escola, ele suga, esconde, engole todo o mundo que se movimenta fora da sala de aula. O quadro negro representa o quadro à óleo na parede do museu.

Ele fala de um tempo antigo, funcional e interessante, mas ele está querendo se passar por algo necessário para mim agora, como diria o grande filósofo Quincas Borba, Humanitas tem fome, Huminatas precisa comer.
O importante é saber do quê tem fome os jovens de hoje, e oferecer-lhe algo que os alimente, que os fortifique.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles é jornalista e roteirista