Poesia de um povo

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Publicada em 09/04/2015 às 11:26:00

* Rangel Alves da Costa

Tomado de razão e de filosofia comum, alguém já disse que a grandeza e as belezas da vida estão nos gestos e atitudes simples de cada um no seu fazer cotidiano. No mesmo sentido a sentença proferida nos tempos idos e desde sempre relembrada: O ouro da lua e a prata do sol, riquezas de inigualável valor, adornam igualmente os seres da vida. Contudo, brilham muito mais naqueles que possuem olhos para avistar além do sol e além da lua.

O que isto significa? Sentimento, apenas isto. Olhos que avistam apenas o sol e a lua avistarão somente e sempre o sol e a lua. Mas olhos que procuram avistar além do simples clarão para enxergar a beleza, a poesia e a força da luz, certamente que acabam fruindo na alma e no espírito todo o mistério e pujança daquele ouro e daquela prata. Assim ocorre com que avista com simplicidade, brandura, singeleza. Contudo, infelizmente, nem todos possuem esse dom.
Mas muitos também o possuem, e quanto mais vivendo e convivendo em lugares distantes, pacatos, onde o progresso voraz, o desenfreado desenvolvimento e os modismos corruptores, mais se tornam próximos da ainda existente poesia da vida. E ainda há um povo assim, uma gente geralmente empobrecida, habitando nos escondidos do mundo, porém de uma riqueza indescritível nos seus modos de ser e existir.

Muitos, sem conhecerem essa poesia da existência, logo lançam olhares e conceitos preconceituosos. Então afirmam da matutice, do primitivismo, do distanciamento do progresso. Ora, mas é exatamente tal afastamento que permite a manutenção do bucolismo, da simplicidade, da humildade, da singeleza da vida. É a pouca contaminação pelas imposições culturais de outros povos que acaba preservando hábitos, tradições e valores próprios.

Esse povo de raiz, cheirando a terra, tão adornado de sol e de lua, convivente e amigo da natureza, do bicho e de todo ser do seu meio, é apenas um povo que ainda retrata um modo de viver costumeiro noutros tempos. É um povo de fé, de fervor religioso, trabalhador, esperançoso, alegre e cativante, amigo e protetor. É um povo que lida na terra, no barro, na vaqueirama. É um povo de estrada de espinho, de paisagem seca, de convívio com mandacarus, facheiros e xiquexiques.

É também um povo que se desdobra para sobreviver, para ter uma panela sobre o fogão de lenha, para ter água na moringa, para que a filharada não permaneça se lamentando por falta de pão. Um povo que acorda antes de o galo cantar e suporta o sol como sal da vida, que se encanta com a lua como alento maior, que ora e agradece por tudo, ainda que o sofrimento não possa ser escondido. Um povo assim ainda existe. Um povo sertanejo, caboclo, de cuja história e luta não se pode esquecer.

O sentido de preservação parece enraizar ainda mais a vida desse povo ao seu chão. Há ainda compadres e comadres, amigos conversando ao entardecer debaixo das grandes árvores, gente que passa de chinelo no pé, lenço na cabeça, roupa de chita, chapéu de couro ou de palha, cocada pelas janelas, arroz doce pelas ruas. Ainda existem quintais, cajueiros e mangueiras, bicho ciscando ao redor. Um antigo carro de bois descansa num sombreado, um velho ajeita seu cigarro de palha nos beiços, a mulher estende a roupa no varal.

A meninada, sempre descalça, sai correndo com a bola murcha debaixo do braço. Joga bola, corre de cavalo de pau, espera a chuvarada para correr sua nudez pelas ruas. A menina bonita, toda perfumada, de cabelo de trança e batom na boca, se põe na janela feito uma princesa à espera do seu encantado. A fofoqueira finge que vai varrer a calçada e fica andando de lado a outro olhando a vida dos outros, do jeito que vão, com quem vão, com que roupa estão.

As velhas senhoras e seus vestidos floridos sentam-se confortavelmente nas calçadas a imaginar a vida, a rememorar, a lembrar dos tempos idos, a falar sozinhas, a sorrir e a chorar. Num instante e já estão gritando pro neto ter cuidado com aquela bola na vidraça de dona encrenca. Mas o menino nem se importa, chuta ainda mais forte, corre mais ainda e parece mirar bem no varal onde a roupa limpinha continua estendida. E a velha se esquece de tudo, pois agora envolvida com uma lágrima cheia de saudade que desce pela face.

Dali a pouco os habitantes vão entrando nas suas casas, suas moradias, E não demora muito para subir pelo ar um cheiro estonteante, gostoso demais, de café torrado. E que profusão de cheiros, um tanto de cuscuz de milho ralado no quintal, de tripa sendo torrada, de bolo de macaxeira saindo do forno. E talvez a noite, faminta como é, se apresse em aparecer para saborear também um pouquinho daquilo tudo.

Eis a poesia de um povo. Versos escritos com a tinta da terra, páginas nascidas nas folhas do tempo. Ainda é possível encontrar esse livro aberto, tão rico e encantador como a própria vida desse povo que o inspirou e preserva a escrita. E que assim seja para a eternidade, ainda que haja a certeza que as traças mundanas não tardarão de se lançarem ávidas sobre sua existência.

* Rangel Alves da Costa é poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com