Viaduto João Ninguém

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Jamais a pompa e a circunstância das cerimônias de inauguração
Jamais a pompa e a circunstância das cerimônias de inauguração

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Publicada em 11/04/2015 às 12:00:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O governador Jackson Barreto inaugurou ontem, numa praça em Santa Rosa de Lima, o busto da professora Neuzice, a quem deve, antes de tudo, a luz da própria vida. Sorte da centenária senhorinha, com valorosos serviços prestados à comunidade, igual a tantas professoras, ter parido quem deu certo na vida. Nisso, é diferente da maioria.

Meu pai, por exemplo, nunca vai emprestar o nome a ponte nenhuma. Vivo ou morto, anônimo e resignado, o heroísmo de sua existência acumula em pilhas monstruosas de renúncias e privações. Jamais o aplauso da história, a pompa e a circunstância das cerimônias de inauguração. O único monumento erguido em homenagem a meu velho é mudo como uma pedra, rosário íntimo desfiado em silêncio pela memória dos pecadores.

Para os moradores de seu prédio, meu pai nunca passou de um vizinho barulhento. A mim, no entanto, ele ensinou tudo. O usufruto do instante e o remorso da alvorada. Se equilibrando entre afagos de botequim, o macho arrependido no qual se transformava tão logo amanhecia acabou me condenando ao sacerdócio ingrato da palavra. Eu observava a dedicatória rabiscada no LP de Roberto Carlos, o perdão apaixonado de mainha, e adivinhava um destino miserável de prazeres culpados do outro lado da rua.

Outro dia, a Promotoria de Justiça de Estância, especializada na defesa do patrimônio público, expediu recomendação ao poder municipal no sentido de que não sejam utilizados nomes de pessoas vivas em bens públicos do município, resguardando os princípios da impessoalidade, da isonomia e da moralidade previstos pela Constituição Federal. A notícia deveria ser aqui lembrada com satisfação, mas no fundo não diz muita coisa. Meu pai não fez nada da própria vida. Nada que levasse alguém a lhe considerar no momento de batizar uma viela ou inaugurar um busto em praça pública. Em quatro filhos ingratos, educados com toda sorte de sacrifícios, seu empreendimento definitivo.

Ah, se eu pudesse! De olhos fechados, no governo de estados, comando revoluções, sobre todas as oligarquias. Um pequeno gesto de vontade, um dedo levantado, somente, e obras descomunais brotariam do asfalto com a naturalidade da hera que desafia o progresso nos muros da periferia. Seu Luiz Antônio muito bajulado no centro de tudo. Discursos e uma faixa vermelha cortada aos seus pés.