Domingo de Páscoa com filme cristão

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O bem sempre vence no final. Mesmo que pareça o contrário...
O bem sempre vence no final. Mesmo que pareça o contrário...

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Publicada em 11/04/2015 às 12:05:00

* Anderson Bruno

No dia da comemoração da Ressurreição de Cristo - último dia 05 de abril, domingo de Páscoa - foi exibido um filme sobre o demônio com vários símbolos e referenciais cristãos - como o sacrifício, por exemplo - a emoldurar a trama.
"O Exorcista" (The Exorcist, William Friedkin, EUA, 1973, 132 min) conta a história da menina Regan (Linda Blair). Com apenas 12 anos, ela tem seu corpo tomado por espíritos malignos. Um exorcismo é preparado e um de seus padres se joga escadaria abaixo numa forma desesperada de entregar sua própria vida para salvar a da inocente e frágil garota.

A todo o momento a dicotomia entre o cientificismo e a espiritualidade humana dá o tom no discurso do roteiro de William Peter Blatty, também autor do livro homônimo lançado em 1971.
Já no início da produção, Regan é levada a todo o tipo de médico. Ela faz baterias de exames sem diagnóstico de anormalidade orgânica. Logo depois, suas funções psíquicas são analisadas e também não se chega a uma conclusão convincente sobre a mudança de seu comportamento. Ela reage com violência a situações triviais do cotidiano, xinga a todo o momento e tem espasmos extremamente violentos. O ápice do conflito acima citado está nas palavras de um dos médicos do corpo clínico do hospital da cidade de Georgetown, cenário do filme. Num tom de irônico menosprezo, o profissional indica a Chris (Ellen Burstyn), mãe da adolescente, a procurar por um sacerdote.

Daí o que se vê é uma sustentação religiosa na explicação daquela presença demoníaca em específico. Alia-se a esse discurso a falta de espiritualidade do próprio ser humano. A mãe de Regan, por exemplo, não tem apego a nenhuma celebração de ordem litúrgica. Pior situação carrega o Padre Damien Karras (Jason Miller). Além da função sacerdotal, ele também é incumbido de estudar psiquiatria na Universidade do condado localizado em Washington D.C., amplamente conhecida por ser reduto de jesuítas.

A todo o momento acompanhamos essa personagem a lutar contras seus próprios demônios. É o papel de maior fraqueza psicológica do longa-metragem. Ele se culpa a todo o momento pela morte de sua mãe, internada numa instituição para perturbados mentais. É um espectro da relação entre Jesus e Maria. Seu emocional se enfraquece e o resultado é a perda de sua fé. A máxima "cabeça vazia, oficina do diabo" faz-se entender nesses momentos.

A (falta de) fé e o pensamento empírico e lógico da psiquiatria são dois fatores conjugados negativamente em Damien no decorrer do filme. Seu resultado se traduz no sacrifício de sua vida terrena ao entregar seu corpo em sacrifício. O sangue derramado no chão - após rolar por vários lances de escadas abaixo - é a simbologia perfeita sobre o sangue de Cristo derramado por nós. Para salvar a menina (o demo queria morte e sangue, portanto não iria deixar o corpo de Regan até conseguir) o Padre se entrega ao 'coisa ruim'. Uma linha tênue ao suicídio é desenhada. Afinal, ele se joga num momento de consciência, embora já possuído. A vida é considerada o maior dos dons e retirá-la se configura num grande erro espiritual. Livre arbítrio. O homem se joga. O resultado final é a extrema unção dada pelo Padre Dyer (William O'Malley), colega de Karras, e o perdão de seus pecados pelo arrependimento. A vitória parece ter sido do Demônio, mas não foi. Para ganhar o Padre precisou perder. E mais uma mãe conseguiu ter sua cria a salvo. O bem sempre vence no final. Mesmo que pareça o contrário - ou Deus escreve certo por linhas tortas.

A produção fez enorme sucesso à época de seu lançamento. O ator sueco Max von Sydow tem presença marcante por ser o exorcista do título desafiado pelo demo a uma revanche. Algum tempo antes, o ser das trevas houvera perdido a batalha contra o Padre Merrin, seu personagem. Sua chegada à residência de Regan é icônica. Num plano aberto, vê-se um feixe de luz a iluminá-lo em meio à escuridão reinante. O diretor de fotografia Owen Roizman foi o responsável por esse primor estético. Outrora, o intérprete já havia desafiado a morte num jogo de xadrez em "O Sétimo Selo" (Ingmar Bergman, 1956).

"O Exorcista" possui uma elaborada estrutura sonora nos efeitos e no próprio som captado para juntos alimentarem as sensações de medo na plateia com ruídos, estrondos e vozes medonhas. Sua trilha de música instrumental é até hoje cultuada pelo uso de cordas estridentes de violinos e frenética movimentação das menores notas de um piano. Único longa-metragem de terror indicado ao Oscar de melhor filme até hoje.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.