O preço do sucesso

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40 anos sob a sombra das próprias canções
40 anos sob a sombra das próprias canções

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Publicada em 18/04/2015 às 11:00:00

* Anderson Bruno

Recentemente o cantor carioca Ed Motta foi motivo de labafero nacional. Dentre os motivos, estava um enunciado que impetrava ao público brasileiro não pedir para o artista executar a música "Manuel" em sua turnê pela Europa, maior hit do cantor até hoje lançado em 1988 através do álbum de estreia "Ed Motta e Conexão Japeri".
Deu pano pra manga e muita coisa foi e está a ser discutida por causa dessas polêmicas declarações. Neste ponto de performance sobre a famigerada canção em específico, nota-se a repetição de algo costumeiro dentro da cena musical de cantores e bandas: a negação de um sucesso que marca ou marcou a carreira de um artista.

Renato Russo - vocalista da "Legião Urbana" - pediu para o público passar a consumir mais as novidades fonográficas de sua banda ao gravar o programa "Acústico MTV" em 1992. Senão eles continuariam a pedir para tocar "Ainda é Cedo", canção lançada no disco "Legião Urbana" de 1985. A banda "Los Hermanos" fez o mesmo ao não querer mais tocar "Ana Júlia", grande sucesso do primeiro álbum do grupo lançado em 1999 intitulado "Los Hermanos".

Pois bem, o grande Al Pacino retorna às telonas a encarna um super astro da música setentista americana em "Não Olhe para Trás" (Danny Collins, Dan Fogelman, EUA, 2015, 106 min). Danny Collins, seu personagem, há quarenta anos não consegue se livrar da sombra de suas mais longínquas canções como "Sweet Baby Doll", por exemplo. Um hit absoluto.

O filme é feliz justamente neste ponto de análise. O preço a se pagar pelo sucesso musical dentro da estrutura do mercado fonográfico é a mediocridade. A todo o momento Danny é taxado de ridículo, coisa que não o afeta. Ele mesmo há tempos não se leva mais a sério. Al Pacino mergulha no papel e extrai mais uma empolgada interpretação ao construir uma persona anárquica, generosa e carismática.

Sua crise de identidade pessoal e artística acontece quando o cantor ganha de seu amigo e empresário Frank (Christopher Plummer) uma carta escrita pelo próprio John Lennon a ele há quarenta anos. O conteúdo basicamente dizia para ele não se transformar no ser que ele houvera se transformado: um beberrão levado pelo sucesso fácil.
A partir deste ponto de virada, a produção toma proporções de drama familiar convencional e um tanto quanto quixotesca. A subtrama consiste na procura de Danny por seu filho Tom (Bobby Cannavale), homem simples, trabalhador da construção civil, casado com a gestante Samantha (Jennifer Garner) e pai da pequena Hope (Giselle Eisenberg), criança portadora de hiperatividade.

Depois disso o filme se rende ao sentimentalismo narrativo de Danny ao tentar se redimir pelos seus erros de ausência enquanto pai, genro e avô. Já na parte musical, ele tenta lançar novas composições.
Enquanto que o núcleo familiar ficou enfraquecido no quesito dramático pela óbvia e rápida solução do seu conflito (uma profunda mágoa que dominava Tom fora extinta pelo fácil apelo infanto-emocional da menina enquanto ser de ligação entre pai e filho) o núcleo musical fora bem fundamentado no roteiro de Dan Fogelman, também diretor do longa-metragem.

Numa tentativa de recuperar três décadas sem composições inéditas, Danny faz um intimista show para lançar novas canções. A única plateia com tal expectativa estava no lado de cá da tela, na sala de cinema. O público de lá, a lotar o aconchegante e refinado barzinho, estava com sede de ouvir mais "Sweet Baby Doll", seu inebriante hit. É o ponto chave do filme. Caso cantasse as novas músicas, daria um passo à frente em suas pretensões transcendentais. Mas o oposto acontece. Sua personalidade já fora moldada há bastante tempo. Mudar seria fazer nascer um novo e desconhecido cantor. Seu público não o reconheceria e seu ganha-pão ficaria por um fio. Estaria fadado ao fracasso. A consciência extrema de sua própria futilidade (pessoal e musical) se estabelece.

O filme tem como ponto de partida real uma carta escrita pelo próprio John Lennon ao cantor inglês Steve Tilston. O manuscrito só chegou à posse do intérprete em 2010, 39 anos depois de escrita.

Nove canções do ex-beatle tocam em "Não Olhe para Trás" a exemplo de "Beaultiful Boy", "Working Class Hero", "Instant Karma" e "Imagine", seu maior sucesso gravado em 1971 para o álbum "Imagine".

*Crítico audiovisual