Guitarras com gosto de ressaca

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 06/05/2015 às 15:14:00

Um fruto nunca cai longe do galho. O desacreditado 'Dias difíceis no Suriname' (2015), segundo disco oficial da Plástico Lunar, não faz muito arrodeio antes de reivindicar o status conquistado em alguns dos palcos mais importantes do País. O riff rasgado na faixa de abertura entrega o ouro logo de cara. Tratamos aqui de uma banda de rock orgulhosa e consciente da própria condição.
Desacreditado porque o relativo ostracismo dos últimos tempos e o hiato prolongado entre os dois registros oficiais da banda deram margem a toda a sorte de especulações. Coleção de Viagens Espaciais (2009), artigo obrigatório na discografia de qualquer cabeludo com um pingo de juízo na cachola, extraiu o sumo da tradição psicodélica para trabalhar os códigos em voga até meados dos anos 70 sem nenhuma condescendência. Descartada a pieguice colorida do Flower Power, restaram guitarras, desbunde e chapação.
Fez a cabeça de muita gente. Geral queria mais. Agora, no entanto, o tom da conversa é diferente. 'Dias difíceis no Suriname' conserva algum senso de humor, mas o sorriso provocado aqui é quase sempre amargo. A altura da viagem é aqui calculada pelos estragos da queda. Composições como 'Mar de leite azedo', 'Labirinto' e 'Persona non grata' têm gosto de ressaca. É como se as composições cobrassem em espécie os tributos gerados pelas dores do crescimento.
Na forma, contudo, a Plástico segue essencialmente a mesma. Um certo frescor pode surpreender os incautos, mas as guitarras não vão decepcionar a seu ninguém.