A descoberta da felicidade

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AÉCIO TINHA REAL ESTIMA POR ANDRÉ, DIFERENTE DE TODOS OS HOMENS
AÉCIO TINHA REAL ESTIMA POR ANDRÉ, DIFERENTE DE TODOS OS HOMENS

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Publicada em 12/05/2015 às 00:57:00

Outrora, antes da existência dos sexos, estava todo mundo misturado. Era uma mistura braba. O processo d industrialização teve como resultado (ou não) a  polarização sexual: o feminino foi para um lado, o masculino para outro. Mas a divisão ficou imperfeita, uma loucura! E assim evolui o nosso ciclo universal. Virá, contudo, a hora em que nos mostremos unicamente um homem e a mulher meramente uma mulher: a polarização impecável, entende? Acabará o terrível amálgama, esse confuso autosacrifício do amor, ficando apenas a dualidade dos pólos, cada qual isento de ser influenciado pelo outro. Em cada um o indivíduo será da maior importância e o sexo subordinado, perfeitamente equilibrado. Cada qual representará um ente simples e destacado, regido por leis próprias. O homem com a sua liberdade e a mulher com o que lhe compete. Um e outro reconhecendo como é perfeito o circuito em que o respectivo sexo se limita e admitindo as diferenças de natureza que em si ocorram.

Assim meditava Aécio durante o tempo em que passou enfermo, internado no Hospital Universitário. Estava acometido por uma grave doença pulmonar. Não se aborrecia por estar doente, sentia que era bom passar algum tempo de cama, longe da correria que sua profissão de jornalista exigia. Logo recuperava a saúde e os pensamentos se tornavam nítidos e calmos.
Ficava muito feliz quando recebia a visita de André. Os dois sentiam profunda atração um pelo outro. Os olhos de André eram vivos, inquietos; vigia sempre impaciente, como se necessitasse de permanente atividade. Vestia-se muito bem, na sua condição de cerimonialista do Palácio do Governo Estadual e mostrava-se sempre impecável. Disso ele nunca abria mão. O cabelo, de tão louro, quase parecia branco; o rosto ardente e corado; o corpo enérgico como  de quase todos   os homens de Lagarto, no centro-sul de Sergipe.

Aécio tinha real estima por André, embora fossem tão diferentes um do outro. E talvez por isso mesmo. André era demasiadamente irreal; inteligente, caprichoso, admirável, mas sem o verdadeiro senso prático. Aécio compreendia que  tinha uma visão mais sadia e maior discernimento  que o amigo. André era interessante, de espírito surpreendente, mas era melhor não leva-lo muito a sério, nem considerá-lo como um homem igual aos outros.

Aécio gostava de ouvir o amigo falar com um sorriso permanente nos lábios. Mesmo quando falava de coisas sérias, como: "Em vez de nos transformarmos para que nos adaptemos a esse mundo de hipócritas, mais vale transformar o mundo para que ele se adapte a nós. Na realidade, bastam dois caracteres excepcionais para criar um mundo excepcional. Você e eu formamos um universo à parte, muito diferente do comum. Não podemos pretender que o nosso mundo seja igual, por exemplo, ao dos seus pais, cheios de crendices e superstições".

- Realmente, retrucava Aécio - as qualidades especiais são aquelas que você aprecia. Por acaso deseja ser fútil e vulgar?
- Não, claro que não;
- Você, meu amigo, o que deseja é ser diferente, num mundo extremamente repleto de posicionamentos equivocados.
André observava Aécio, com olhar sutil, compreensivo. Mas nunca seria capaz de confessar, assim, abertamente, semelhantes teorias. De certa maneira sabia mais do que Aécio, muito mais. Isso enchia-o de ternura pelo amigo, como se ele fosse um jovem inocente, quase uma criança precocemente inteligente, mas de uma inocência incurável. Tinha uma alma juvenil e espontânea que o atraía irresistivelmente.
Eram muito diferentes os pensamentos que atravessavam a mente de Aécio. Outro problema lhe ocorria, de súbito, ao espírito: o amor entre dois homens. Era, sem dúvida, necessário - sempre o sentira- amar alguém - seja homem ou mulher - de forma pura e completa.

Deitado na cama, Aécio meditava, enquanto André, ao seu lado, numa cadeira, se perdia num mundo de reflexões. Cada um deles, seguindo o curso de seus pensamentos, prestaram juramente de fidelidade, de comunhão de sangue para toda a vida. E um amor recíproco, implícito, perfeito, definitivo, sem nenhum possibilidade de arrependimento.
Os dois se olharam com ternura, satisfeitos com a descoberta, manifestando a felicidade que os animava. Pareciam, afinal, os elementos necessários para a criação de um mundo excepcional e verdadeiro.