A mulher no jogo dos tronos

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A vida não é um mar de rosas
A vida não é um mar de rosas

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Publicada em 21/05/2015 às 00:54:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A patrulha feminazi bateu à porta dos sete reinos onde o seriado Game Of Thrones está ambientado. Vai dar com os burros n'água. Embora a quinta temporada exibida pelo canal HBO venha diminuindo o ritmo da narrativa, contrariando a expectativa dos mais afoitos, a acusação de misoginia motivada por uma nova cena de estupro não se sustenta sobre as pernas. A vida nunca foi um mar de rosas para as mulheres.
A histeria não é um dado novo, acompanha o seriado desde a primeira temporada, quando a violência foi instrumento para a consumação do casamento entre dois personagens (Daenerys Targaryen e Khal Drogo). Os inquisidores de plantão em blogs e redes sociais voltou à carga mais tarde, quando Cersei foi subjugada por Jaime Lannister sobre o caixão do próprio filho. Não seria diferente agora.

O principal argumento dessa turma possui um fundo moral e quase religioso. Os repetidos ataques realizados contra as personagens femininas desobedeceriam às muitas páginas das 'Crônicas de fogo e gelo' redigidas por George R. R. Martin, a bíblia nas quais o produto televisivo é baseado. Uma heresia. Ocorre que o audiovisual possui mecanismos internos (para citar o título de um livro de ensaios críticos do sul africano JM Coetzee, Prêmio Nobel de literatura) diversos. A fidelidade das adaptações pode até ser desejável, mas nunca um dogma, não uma regra sagrada. O único pecado neste particular ofende apenas a coerência exigida pela trama. E os episódios supracitados só surpreenderam quem ligou a televisão folheando os livros.

"Woman is the nigger of the world", vaticinou o mais engajado dos Beatles. De um modo ou de outro, as nascidas em berço de ouro sofrem igual às filhas da escória. Desde que o mundo é mundo. Não explicaria uma tentativa de naturalização de um discurso de violência, mas o buraco é muito mais embaixo. Ao menos, no caso em questão.
A mulher em Game Of Thrones é uma reserva de inteligência e personalidade em um ambiente corrompido pela ambição. Há, inclusive, o caso de Briene Targarien, um corpo estranho em um universo governado pela força bruta, convenientemente ignorado pelos detratores. "Na mulher que pensa, os ovários secam. Nasce a mulher para produzir leite e lágrimas, não ideias; Não para viver a vida, mas para espiá-la por trás das persianas", lembrou Galeno. Aqui, ao contrário, são elas a mexer as peças no tabuleiro da guerra. Mesmo quando não sujam as mãos.