Ilegal - A vida não espera

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O cenário político é o mais infame de todos os registros
O cenário político é o mais infame de todos os registros

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Publicada em 30/05/2015 às 00:47:00

* Anderson Bruno

A memória mais forte depois da exibição do longa-metragem nacional "Ilegal - a Vida Não Espera" (BRA, 2014, cor, 90 min) é a de como é nefasto o sistema no qual vivemos.
O documentário registra a luta de pessoas comuns para conseguir autorização para usar legalmente os substratos da maconha em uso medicinal. Os diretores Raphael Erichsen e Tarso Araújo acompanharam um pequeno grupo de pessoas e sua verdadeira via-crucis para convencer sociedade, políticos, burocratas (e principalmente a si mesmos) de que a liberação da substância proibida faz-se necessária para alguns enfermos. Os derivados da 'cannabis sativa' são os únicos princípios ativos a estancar as convulsões, por exemplo, da pequena Anny Fischer de apenas 06 anos. Outra depoente trocou o uso da morfina pelo uso da erva. Suas dores na coluna vertebral diminuíram. Ela fumou por um tempo escondida no banheiro. Tudo para não espalhar a fumaça do produto. Seus vizinhos a taxavam pejorativamente de maconheira.

Impressionante perceber o quanto um assunto, a princípio simples (liberar uma erva ilegal para ser usada em uso medicinal), se transformou num verdadeiro 'bicho de sete cabeças' por causa de uma sociedade alienada, preconceituosa e discriminadora aliada a um sistema burocrático e estressante por sua vez atrelado a políticos (e políticas) portadores de demagogia. Instituições como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) acompanham o passo. Se por um lado a autarquia concede uma liberação especial para o uso do canabidiol (ou CBD, extrato da maconha) em indivíduos com específicas patologias, por outro as barreiras alfandegárias complicam a chegada do remédio às mãos daqueles que precisam. Enquanto isso, o organismo dos enfermos piora.

O contexto analisado friamente é ridículo! Simplesmente por causa de uma planta (isso mesmo, uma planta!) Katiele Fischer, mãe da pequena Anny, precisa ficar o tempo todo em alerta. Sua filha tem fortes convulsões a cada duas horas. Apenas o produto a base do substrato do vegetal consegue cessar seus tremores. É realmente chocante o registro em imagens de seus espasmos. Todo o seu corpo se contorce. A mãe acompanha pacientemente e drama se dissolver depois de minutos. A captação ganha credibilidade por ter sido gravada no meio de um depoimento. Instantaneamente a fala é interrompida para a pequena ser socorrida. A câmera continua a gravar. Realidade quase perfeita se considerarmos os princípios documentais para o registro do 'real'. Digo quase, pois o momento epilético é acompanhado por uma edição. Outros planos do momento entrecortam uma montagem para esta sequência. O registro contínuo e sem cortes daria mais sustentabilidade sobre a tal realidade mostrada. Seja como for, os diretores conseguiram uma gravação brilhante para comprovar a gravidade da situação sem transformar o material em apelo fácil para a audiência ou simplesmente panfletário pelo fato de uma criança estar no foco da questão.

O cenário político é o mais infame de todos os registros. Neste ponto a edição de Tiago Berbare se fez privilegiada. Dentro de uma narrativa paralela, um deputado federal desdiz toda a falácia demagógica do outro parlamentar. Era um dizendo e o outro contra argumentando. Eles não se encontraram na mesma cena. Cada um está em seu gabinete a discutir o apoio do Congresso Nacional para a dupla de mulheres militantes da causa pró cannabis. Enquanto o discurso do primeiro era de enrolação (de maneira vergonhosamente óbvia) o do segundo político já encampava palavras de ponderação, razão e luta.

Todo documentário precisa passar uma credibilidade ao espectador. Pode ser a maior mentira do mundo, se a plateia acredita no que vê e ouve é por dois motivos: ótimo direcionamento para transformar o irreal em real (Hitler fez isso com a ajuda de seu propagandista Joseph Goebbels) ou um excelente registro sobre um fato. "Ilegal - A Vida Não Espera" equivale à segunda opção (acredito eu).

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.