OS CRUCIFICADOS NA AVENIDA PAULISTA

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Publicada em 14/06/2015 às 14:44:00

Estavam quase nus, envolvidos em purpurina e pregados a uma cruz, militantes gays que participavam da parada anual em São Paulo. A cruz, como se sabe, é um venerado símbolo religioso do cristianismo. Temos tido exemplos bem recentes e traumáticos das consequências desastrosas que podem advir de ¨ brincadeiras ¨ envolvendo a fé religiosa. A revista satírica francesa Charles Hebdo, especializou-se em mexer com as religiões, de forma até grosseira, e com duvidoso senso de humor. Tudo em nome da liberdade de expressão, que deve ser ampla, total e irrestrita. Os donos da revista escaparam do massacre após as charges inconsequentes envolvendo o profeta Maomé, agora, estão riquíssimos. A publicação decadente e quase esquecida, virou noticia no mundo todo, atingiu cifras impressionantes de venda, na casa dos milhões. Um excelente negócio para quem não passava dos 50 mil exemplares. Mas a sociedade francesa por muito tempo pagará as consequências da lenha colocada na fogueira da intolerância e do sectarismo religioso. O mundo está envolvido pelo sentimento deplorável que moveu cruzados a irem exterminar infiéis, e que agora faz os fanáticos do estado Islâmico a cortarem cabeças e mutilarem mulheres. Livramo-nos, aqui, da intolerância religiosa (um pastor chutando na televisão uma imagem de Nossa Senhora, foi cena deprimente, logo combatida pela própria Igreja a qual ele pertencia) embora, aqui mesmo, em Aracaju, tenha existido um movimento religioso - político comandado pela Igreja católica, a Liga Eleitoral Católica -LEC-, que amaldiçoava quem era, e quem ¨ votava em comunistas ¨. Mas a nossa boa tradição é a da tolerância, que se expressa no sincretismo religioso, com orixás misturando-se aos santos. Ogum é São Jorge, Santa Bárbara , Iansã; Oxum , Nossa Senhora da Conceição; São Jerônimo é xangô. O cristianismo fez as catedrais esplendidas, monumentos da nossa civilização. Nas selvas africanas encontrou-se com o animismo do povo negro, santificando a natureza que o cercava, e antecipou a concepção holística da vida, o conceito ecológico-sistêmico dos seres em integração, interagindo com o universo.
A Parada Gay, alegre, descontraída, combate o preconceito, a chaga da homofobia, mas o grotesco espetáculo dos crucificados nus poderá ter efeito contrário, engrossando o coro ridículo e odiento dos ¨bolsonaros¨, que querem fazer do Brasil uma nação de fanáticos intolerantes.