DE JÂNIO QUADROS A DILMA ROUSSEF

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Publicada em 26/07/2015 às 00:16:00

Jânio Quadros chegou ao poder prometendo varrer a corrupção. Seu grotesco símbolo era a vassoura. Na época, um bom chargista, para ridicularizá-lo, o teria desenhado como uma bruxa sobre o seu aparato voador.
Sete meses depois de empossado, o seu repetido jargão moralista já havia cansado os brasileiros e seus jocosos decretos proibindo brigas de galo e misses desfilando de maiô, o fizeram objeto de gozação. Atritou-se com o Congresso, entrou na linha de tiro do demolidor Carlos Lacerda e, sempre de porre, imaginou tornar-se ditador, fechando o Congresso para governar sozinho. Mandou um lacônico bilhete ao presidente do Senado, Auro de Moura Andrade: ¨Nesta data e por este instrumento renuncio ao mandato de Presidente da República para o qual fui eleito em três de outubro de 1960¨. Imaginava em delírios etílicos, que o povo sairia às ruas, os militares se poriam de joelhos diante dele, e o Senado ficaria impedido de declarar vaga a Presidência.
O senador Auro de Moura Andrade abreviou a cena. Leu o breve documento e acrescentou: ¨Sendo a renuncia um ato de vontade pessoal, declaro vaga a Presidência da República¨.
Instalou-se a crise, quase uma guerra civil. A Junta Militar formada pelo marechal Dennys, o almirante Hadmacker e o brigadeiro Melo, quis impedir a posse do vice-presidente João Goulart.
Venceu a legalidade, mas as sequelas das divisões militares permaneceram. Goulart, por sua inabilidade política uniu os quartéis contra ele, e atiçou as elites brasileiras , com a bandeira do anticomunismo que a Igreja abençoava e a imprensa agitava.
Há renúncias que podem ser interpretadas como fuga covarde, ou ato de puro egocentrismo. E há as renuncias resultantes do desprendimento, da coragem, do esquecimento do Eu diante do interesse coletivo.
Charles de Gaulle, após superar os turbulentos e transformadores episódios de maio de 68, entendeu que a sua presença no governo da França seria um fator de desagregação, renunciou, e foi escrever suas memórias na tranquilidade bucólica de Colombey les Deux Eglises.
Dilma deveria fazer agora, sóbria, e com responsabilidade, o que Jânio fez bêbado e irresponsavelmente.
A presidente não consegue governar, o Congresso desgoverna. Dilma não tem habilidade política, nem mesmo chega a ser uma gerente eficaz. Criou uma carga de aversão entre os que deveriam ser aliados, sua rejeição cresce de forma impressionante, a economia estagnou. Há uma coisa chamada Mercado, que não é mera ficção. O mercado existe, é forte, impõe regras, bem ou mal o Mercado comanda, não adianta desafiá-lo, o regime é capitalista. E o Mercado não acredita, não confia em Dilma. Os investidores se retraem, tudo está paralisado. A escalada do dólar junto com a possibilidade de rebaixamento do grau de investimento, agravarão o desemprego. Por mais que se esforce, a presidente não conseguirá superar a crise. Ela é o nome da crise.
Não há outra saída. Felizmente evoluímos, não há riscos de interrupção do processo democrático. Afora alguns tresloucados que falam em intervenção militar, ou a ambição de Aécio que quer aspirar os frangalhos da República, acabou, no Brasil, o tempo em que crise política se resolvia batendo às portas dos quartéis.
Dilma, saindo por vontade própria, tudo se fará em absoluta calma institucional. No dia seguinte, até como efeito psicológico, o clima de frustração, desesperança e desastre começará a ser aliviado.
Saia Dilma, faça isso pensando mais no Brasil, e menos na companheirada que, enfim, pensou e conseguiu melhorar as condições de vida do povo brasileiro, mas, com a volúpia do próprio bolso, armou a resistência da direita conservadora para desmoralizar um projeto de Brasil mais justo, pecando, todavia, por ser incompleto, enquanto a companheirada e associados, não tiveram a sabedoria de admitir que roubo, até entre as elites, deve obedecer a ¨limites éticos¨.