Sobre máfias, mafiosos e códigos de ética

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Publicada em 05/08/2015 às 00:41:00

A Máfia Brasileira em nada ficando a dever as máfias italiana e mexicana nos seus métodos. Ela está presente no meio empresarial, nos sindicatos e em centrais sindicais, no meio político, nas Igrejas, sobretudo nos catas níqueis pentecostais que se expandem com erva daninha

* Miguel dos Santos Cerqueira

Máfia ou as máfias são uma organi-zação criminosa cujas atividades de controle estão submetidas a uma direção colegiada oculta, a maioria dos seus membros atua em unidade propósitos e não de dão a conhecer. Agem à ocultas em tudo se apresentando como cidadãos de bem, homens bem sucedidos nas suas atividades de aparência. A atuação da máfia repousa numa estratégia de infiltração na sociedade civil, nas instituições e nos aparelhos do Estado. Até mesmo as Igrejas, todas elas são suscetíveis a atuação da Máfia.

Na Itália, o berço da Máfia, a organização criminosa possui diversas ramificações, sendo mais conhecidas a "Cosa Nostra" e a "Camorra". No continente americano, na América do Sul, notadamente, na Colômbia, se têm as máfias representadas pelos cartéis da produção e tráfico de cocaína. Na América do Norte, no México, se têm as perigosíssimas máfias do tráfico de droga e as máfias dos coiotes, daqueles que traficam seres humanos para a emigração e trabalho em condições precárias nos Estados Unidos.

O Brasil, que está inserido no universo, que nasceu da primeira das globalizações ocidentais da Era Cristã, da globalização comercial desencadeada pelas grandes navegações.  O Brasil nunca esteve imune as anomalias e degradações do mundo, portanto, também aqui as máfias atuam com desenvoltura.
De fato o Brasil também possui as suas máfias. Aquelas pessoas mais velhas, os que não pertencem a minha geração e daqueles que nasceram a partir dos anos 1970, ouviam falar das nebulosas transações de políticos ladinos, um deles que governou o Estado de São Paulo ficou conhecido pelo seu famoso cofre, onde diziam, guardavam o produto das suas atividades mafiosas no mundo da política.

O golpe empresarial-militar de 1964, que instaurou a Ditadura, tinha como uma das suas bandeiras o fim das máfias que sangravam e ressangravam a nação. Não obstante, foi no período da Ditadura Militar, com generais e coronéis à frente dos Ministérios, associados com alguns cíveis, que os esquemas mafiosos mais progrediram e as empreiteiras que tocavam as obras de infraestrutura mais se agigantaram; se beneficiando dos esquemas mafiosos, impedidos de virem à luz em face da brutal censura. Foi nessa época que se destruiu a concorrência então existente entre as emissoras de televisão, se permitindo a formação de monopólios de empresas de comunicação, assemelhados em tudo aos esquemas mafiosos, uma vez que deturpam a liberdade de informação e destroem aqueles que são considerados inimigos.
Com a deblace da Ditadura Militar, em seguida ao trágico início da chama "Nova República", nos estertores do Governo de José Sarney, acossado por denúncias de corrupção, ou seja, de estar corroído pelas máfias, aparece a figura de Fernando Collor de Melo anunciando-se o caçador de marajás, o pai dos descamisados e exterminador das máfias.

Em torno da figura do audaz caçador dos marajás, do suposto saneador da vida nacional de todos os seus vícios, após a consolidação da sua candidatura à presidência da república, como sendo a única alternativa viável à Direita capaz de fazer frente as candidaturas de Esquerda, no caso, de Leonel de Moura Brizola, pelo PDT e Luís Inácio Lula da Silva, pelo PT, passaram a gravitar além dos detentores das maiores fortunas nacionais, empresários menores, políticos oportunistas, todo o séquito de pastores das Igrejas Evangélicas Pentecostais, toda sorte de gente que não queria perder ou só almejava ganhar.

Dentre as figuras da esfera política que aderiram e passaram a gravitar em torno do então candidato a presidência Fernando Collor de Melo está o atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Também o atual presidente do Senado, Renan Calheiros, está vinculado ao projeto, sendo um dos principais formuladores das políticas do viria a ser o futuro governo.

O caso mais emblemático, porém, é o do atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, pessoa que, segundo consta, tornou-se muito próxima do então tesoureiro da campanha do então candidato a presidência, Fernando Collor de Melo, o senhor Paulo César Farias.

O ex-seminarista católico Paulo César Farias, após uma trama de alcova envolvendo o então presidente Fernando Collor de Melo e a mulher do seu irmão, Pedro Collor de Mello, esse corroído por ciúmes, passou a acusar o então tesoureiro da campanha presidencial de ser o testa de ferro em diversos esquemas de corrupção, ou seja, que ser membro de um esquema mafioso que ascendeu ao comando da administração da República.

De fato, investigações esclareceram que durante a campanha para a presidência da república em 1989, sob o comando de Paulo César Farias, a campanha do presidente eleito, Fernando Collor de Melo, arrecadou exclusivamente de empresários privados o equivalente a US$ 8 milhões. Também ficou comprovado que após eleito, por conta de favor prestado o "esquema PC" movimentou mais de US$ 1 bilhão dos cofres públicos.

Uma vez desmascarado o esquema mafioso, prestes a sofrer o impedimento, o então Presidente Fernando Collor de Melo renunciou a Presidência da República. Mesmo tendo renunciado ao cargo de Presidente da República antes do seu início, a Câmara dos Deputados prosseguiu com o processo de impeachment.

O suposto chefe do esquema mafioso, Paulo César Farias, que na verdade era apenas um dos seus membros, foi morto em condições nebulosas no ano de 1.996. O assassinato do tesoureiro Paulo César Farias foi digno do mais perfeito esquema das máfias, em tudo se aparenta com o "modus operandi" das máfias russas e israelenses. A morte trágica do apelidado "PC" foi, inequivocamente, uma queima de arquivo, um acerto de conta entre mafiosos, tendo em vista que ele, quando devia, não denunciou todo o esquema, trazendo a luz o nome de todos os envolvidos.

Assim o esquema que não nasceu com a Presidência de Fernando Collor de Melo e não morreu com o silenciar de Paulo César Farias, o esquema mafioso articulado por diversos setores e que se encontra entranhado na vida nacional permanece, embora, em alguns períodos, quando ocorre maior vigilância ou então os condutores das administrações se vinculam a princípios verdadeiramente republicanos, ou melhor, postulados weberianos, são contidos temporariamente.

O esquema se reproduz, aparentemente por geração espontânea, se alguns tombam ou são silenciados, aqueles remanescentes, que aprenderam com os que foram silenciados, cooptam novos membros para o esquema. É muito difícil exterminar as máfias. Todas elas têm códigos de condutas e legislações próprias. Todas elas estão presentes em todos os espaços, esferas, instituições e aparelhos do Estado. Todas elas ameaçam, chantageiam, extorquem e matam.

O grande perigo das máfias é quando elas deixam de trafegar nas margens, de andejarem nos subterrâneos, para atuarem as escâncaras, quando, destemidamente, invertem os valores e a moral dominantes, quando se assenhoram das veias do Estado e da Nação, determinado os postulados da Cultura e da Civilização de um povo.

Na Itália, a máfia como os seus tentáculos, segundo alguns, no imbróglio do Banco Ambrosiano, um caso de corrupção que abalou o Vaticano, foi a responsável pela morte precoce do Papa João Paulo I, o Papa Sorriso. No Brasil, nesses dias de trovoadas da "Operação Lavajato", aquela que parece ser a máfia brasileira, com os seus tentáculos, arrosta contra Procurador da República, intimida e ameaça advogados, veja-se o caso da advogada Beatriz Catta Preta, transformada em "bandida" por ter incomodado sócios dos esquemas mafiosos.

A Máfia Brasileira em nada ficando a dever as máfias italiana e mexicana nos seus métodos. Ela está presente no meio empresarial, nos sindicatos e em centrais sindicais, no meio político, nas Igrejas, sobretudo nos catas níqueis pentecostais que se expandem com erva daninha. O pior e mais grave em tudo é a desfaçatez e audácia dos mafiosos, notadamente daqueles que atuam no meio político, e o apoio explícito que lhes dão seus pares e parte da população, que ao lhes prestar apoio só porque fazem oposição ao governo central, adotam uma moralidade pragmática e seletiva, demonstram que em critérios de moralidade e ética se igualam aos horrendos mafiosos.

* Miguel dos Santos Cerqueira, Defensor Público, titular da Primeira Defensoria Pública Especial Cível do Estado de Sergipe, Coordenador do Núcleo de Direitos Humanos da DPSE.