MEMÓRIAS DE UM TEMPO ASQUEROSO

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Publicada em 17/10/2015 às 14:38:00

Atravessamos, no século passado, duas ditaduras. Uma, começou com a desordem generalizada dos tenentes chegando ao poder em 1930, querendo mudanças sem saber como. Getúlio Vargas, que a revolução fez presidente, foi aquietando os impetuosos, repondo a hierarquia nos quartéis, e concentrando poder em suas mãos. No dia 10 de novembro de 1937, com o mundo à beira da guerra mundial, esquerda e direita se enfrentavam, na Espanha já se estraçalhavam mutuamente. No Brasil, duas rebeliões sufocadas, motivaram a resposta de Getúlio: o Estado Novo, modelo fascista que durou até 1945, quando o ditador foi deposto pelo mesmo exército e generais que o apoiaram e sustentaram o regime. Já a ultima das duas ditaduras, instalou-se em abril de 1964. Veio após uma sucessão de clamorosos erros políticos e uma radicalização que apontava para a guerra civil.  
Ficou até 1985, variando de intensidade e de humor conforme as circunstâncias locais ou a temperatura da ¨guerra fria¨, antecâmara da temida guerra nuclear entre os blocos capitalista e comunista.
Em dezembro de 1968 a ditadura extremou-se. Sob a complacência de todos os que fizeram parte da sinistra reunião, decidiu-se que o Ato Institucional nº 5 seria editado e aí desabou a tempestade.
Esse tempo de arbítrio e medo foi relembrado na Assembleia durante a devolução simbólica dos mandatos aos cassados.
Gilton Garcia presidente do Poder Legislativo, que foi levado preso e humilhado ao quartel do 28º BC, perdeu o mandato e a cátedra na UFS, fez um longo histórico da sua vida e das suas vicissitudes naquele tempo sombrio. Mostrou como a besta arrogante funcionava, perseguia, e se fazia ouvinte atenta de todas as intrigas e delações. Gilton só conseguiu descobrir os reais motivos da sua desdita mais de 20 anos depois, quando teve acesso às fichas liberadas pelo SNI. Lá estava escrito: ¨Trata-se de um jovem inteligente, preparado, que poderá ter um grande futuro político¨. Repressão e inteligência são antípodas.
Aerton Silva, outro que perdeu o mandato, foi preso e teve bens confiscados. Ele contou, emocionado e firme, como foi alvo do ódio descontrolado do oficial Eduardo Pessoa Fontes, Capitão dos Portos e Chefe da Comissão Geral de Investigações, um aparato de feição totalitária que mandava e desmandava. O oficial matou-se no Arsenal de Marinha no Rio de Janeiro. Era acometido por surtos psicóticos, e foi o sátrapa terrível de uma satrápia chamada Sergipe.
A deputada Maria Mendonça, filha do líder itabaianense Chico de Miguel, falou emocionada, indo às vezes às lágrimas ao lembrar dos tempos tormentosos que viveu a sua família. Teve palavras duríssimas em relação aos regimes autoritários e alertou os jovens para o perigo de se deixarem encantar pelo equívoco pernicioso das soluções buscadas nos quartéis.
Uma filha do grande sergipano Jaime Araújo, a engenheira Selma, recebeu das mãos de João Augusto Gama o diploma de deputado que tiraram do seu pai, porque ele foi sempre a voz corajosa e lúcida que nunca calou diante do arbítrio.
Outros igualmente punidos pela mesquinharia do regime estavam representados pelas famílias naquele momento que eles não viveram para participar: Baltazarino Santos, Edson Oliveira, Santos Mendonça e Durval Militão.
O líder lagartense Rosendo Ribeiro, em solenidade anterior, recebeu de volta, ele próprio, o diploma, das mãos do seu neto, o deputado Gustinho Ribeiro.
O exemplar instante de civilidade política foi o gesto do presidente da AL, deputado Luciano Bispo, adversário de Chico de Miguel, que deixou de lado antigas animosidades, participando da entrega do diploma confiscado ao filho do homenageado, o ex-deputado federal e estadual José Teles Mendonça.