Estratégia para uma travessia

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Publicada em 22/10/2015 às 10:38:00

* Rômulo Rodrigues

Ao completar 290 dias do seu segundo mandato, tomando pancadas, e aparentemente sem esboçar reação, parece que Dilma tinha uma estratégia que apostava no esgotamento das forças dos adversários para depois contra atacar e desmascarar os golpistas como está fazendo.
Poucos entenderam seu comportamento e tinham uma visão clara de sua estratégia. Entre muitas agonias, incompreensões e sofrimentos, podemos destacar duas coisas: 1) Ela percebeu que uma poderosa bomba em forma de crise ia estourar em seu colo e 2) a militância petista como um todo sofre de uma profunda crise de firmeza ideológica, fruto de sua prolongada crise de direção. E, aos petistas que a criticam hoje, duas recomendações, 1); As concessões de Vargas ao nomear Horácio Lafer e João Cleofas como Ministros de seu governo e 2); Igualmente a de Jango ao nomear Carvalho Pinto como Ministro da Fazenda. E vejam que estes governos só tiveram certa tranquilidade enquanto perduraram as alianças.
"O que é preciso analisar é se haveria outro governante, de esquerda, que suportaria o que Dilma vem suportando"
Comparem com as nomeações de Levy e Kátia Abreu e tirem suas conclusões. Ah, não deixem de dar uma passada no plano qüinqüenal de Celso Furtado!
Com relação à percepção da crise, Dilma parece ter se inspirado em Maquiavel e seguiu o conselho à risca: "Se tiver que tomar medidas ruins, tome-as todas de uma vez; se tiver que tomar medidas boas, tome-as aos poucos.
O mais provável é que Dilma tenha percebido que a atual crise do capitalismo global está se prolongando demais e as medidas "derivativas" aplicadas nos governos Lula, já não surtiriam efeitos no atual momento.
A bomba que explodiu no colo da Presidenta Dilma começou a ser fabricada quando houve o grande pacto inter burguês que gerou o Plano Real, no governo Itamar Franco, e que teve a participação do hoje trabalhista Ciro Gomes.
O Plano Real teve como efeito econômico imediato a valorização da nova Moeda em 1,75 vezes em relação ao Dólar e o conseqüente achatamento salarial nas mesmas proporções, comendo uma perda salarial acumulada de 175% , e como efeito político a eleição de FHC para Presidente resultando como política de estado o desmonte da economia de desenvolvimento e impulsionando o domínio do capitalismo financeiro.
Eles souberam que concessões feitas após um massacre à classe trabalhadora, com o passar dos anos, seriam incorporadas como conquistas, e os crimes esquecidos. CLT, Jornada de 48horas, FGTS, PIS, Salário Desemprego e outros, podem contar essa história.
O Neoliberalismo, ao se fazer presente, hegemonizou a economia e formulou leis e decretos que impossibilitassem, no futuro, a governabilidade da corrente Progressista, Trabalhista e Popular que já havia ameaçado chegar ao governo na eleição de 1989.
A Lei 950497, que normatizou o financiamento privado das eleições, o DL 2745 de 1998, que abriu a Petrobras par o escândalo de hoje, o DL de 1999, que impediu o desenvolvimento de tecnologia nacional para eliminar 90% dos efeitos da poluição do Carvão Mineral, que hoje teria uma economia equivalente ao Horário de Verão e finalmente a LRF, de 2000, que é o coroamento para submeter toda a capacidade de intervenção do Estado, no desenvolvimento da economia, ao asfixiamento de controles fiscais.
A crise, tão propagandeada pela mídia existe, mas é preciso identificá-la como uma crise ideológica, com aprofundamento na política e que afeta a economia. Desde a eleição passada que ela é a única aposta da direita para retomar o comando do Estado brasileiro e que tem uma nova metodologia. Podemos começar dizendo que no Brasil instituiu-se um novo elemento de crise que é o Marketing da crise, que consiste em produzir fatos e lavar fatos e repeti-los seguidamente até tirá-los da situação de inverossímil, passá-los para a condição de verossímil e transformá-los em verdades absolutas.
 O ressurgimento desta ofensiva ideológica através da mídia e seus aliados políticos foi, de certa forma, impulsionada por dois acontecimentos aleatórios. O primeiro foi a Operação Lava Jato e o segundo foi a queda do Jatinho sem dono.
A Operação Lava Jato, que era uma operação para investigar um bandido reincidente que havia quebrado um acordo de delação premiada com o Juiz Moro, captou um telefonema de Youssef para um ex-diretor da Petrobras, e aí o ambicioso Juiz despertou o interesse da mídia internacionalista e viu na maior empresa brasileira, sendo Estatal, a oportunidade de vir a ser o Berlusconni brasileiro.
O objetivo da Lava Jato é impor o predomínio de uma visão de internacionalização da economia brasileira criminalizando toda e qualquer política de desenvolvimento da economia interna. É a supremacia do capital financeiro sobre o capital produtivo. Por isso, os ataques centrados sobre a Petrobras e as principais empresas de engenharia, especialmente a Odebrecht, por esta ser capacitada para produzir Submarino Nuclear com tecnologia nacional e forçar a aceitação do Brasil no conselho de segurança da ONU.
A sociedade brasileira tem que ter a clareza do papel que os meios de comunicação desempenha na atual conjuntura que é o da disseminação do Ódio, como elemento difusor da divisão da sociedade para facilitar o retorno de um tempo em que quem determinava o valor do Salário Mínimo, quantos trabalhadores perderiam os empregos por ano e como o Brasil votaria na ONU, eram o FMI e os EUA, em sobreposição a uma política que criou os BRICS e critica duramente os EUA, na ONU, ao condenar os ataques na Síria, que mataram civis e Médicos Sem Fronteiras.
Aos brasileiros que cultivam o ódio interno e externo, o recado é; Enquanto Cuba exporta Médicos para o mundo todo, os EUA, exportam soldados e armas poderosas.

* Rômulo Rodrigues é militante político