O DOSSIÊ ITAMARACÁ

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Publicada em 21/11/2015 às 15:48:00

Quando presos cruzam os portões sombrios de uma penitenciária, onde ficarão encarcerados, e se sentem aliviados, algo de estúpido estaria acontecendo no país, ou no Poder que os encarcera. Naquele ano de 1975 havia, efetivamente, algo estúpido, algo sinistro no Brasil, algo que se chamava Ditadura, Autoritarismo, Regime Forte, Governo Militar, ou quaisquer outros nomes, que, no caso, serão sempre os adjetivos, que se queira dar à ignomínia da supressão dos direitos e da cidadania. Naquele ano, o Brasil ultrapassava uma década, desde quando a radicalização política, a insensatez do desprezo ao diálogo, nos levou ao golpe civil-militar, comemorado, aliás, como se fosse a redenção do país , pela maior parte da sociedade brasileira, atemorizada, anestesiada por uma lavagem cerebral, que enxergava por todo lado ¨subversivos¨ a soldo de Moscou, Pequim e Havana, querendo explodir a sacrossanta estrutura da família, da tranquila cristandade, vivendo ainda como os senhores de engenho de antanho, sobre uma sala atapetada, candelabros de prata e cristais à mesa, tudo sobre um porão onde a escravaria estava acorrentada, enquanto no andar de cima aconteciam os rega-bofes.
Mas, enfim, tudo ocorreu, e em consequência de tudo isso, presos sentiam-se aliviados chegando a uma Penitenciária.
No livro Dossiê Itamaracá, a jornalista e historiadora Joana Côrtes refaz, numa narrativa primorosamente elaborada, o que era o cotidiano da vida dos presos políticos que, assim aliviados, chegavam à Barreto Campelo, o estabelecimento penal ¨moderno¨ que o Secretário de Segurança de Pernambuco anunciara na inauguração festiva, dois anos antes.
Um preso João Bosco, pai de Joana, a autora, foi um daqueles que se sentiram aliviados, chegando à ilha. Depois da prisão nas ferozes delegacias do DOPS pernambucano, da fúria irracional contaminando oficiais das forças armadas que se prestaram para o ofício infame da tortura, na Penitenciária, já condenado, talvez até, ouvindo ao longe o canto das cirandeiras, ele estaria dispensado da rotina da pancada e da humilhação extrema.
Joana, com seus irmãos, quase não viveram aquele tempo, mas nele nasceram. Souberam que o pai na prisão, tornou-se artista plástico, emblemática ou metaforicamente dedicado à arte da pirogravura, que se faz numa estética de fogo sobre o couro enrijecido. Souberam que a mãe, Ana Maria Rolemberg Côrtes, foi também presa política, uma ¨guerrilheira¨ permanente da liberdade que, solta, dedicou-se à luta pela anistia .
Souberam dispersamente de tudo isso, e então, Joana, com a cuidadosa metodologia da historiadora trabalhando numa dissertação de mestrado, resolveu contar o drama dos pais, a tragédia do próprio país, a partir da visão do dia a dia dos presos políticos da Penitenciária de Itamaracá. Surgiu o Dossîe, página fundamental de um programa de memórias reveladas, livro que deve constar em todas as bibliotecas, principalmente, naquelas que os jovens consultam.
Talvez o Dossiê de Joana Côrtes, escrito com alma, escrito com a dor inconsolada dos traumas do passado e a esperança sempre retemperada no futuro deste país, possa servir para que às cabeças transtornadas dos que estão a pedir a volta da Ditadura, chegue um mínimo que seja de compreensão. Compreensão sobre os malefícios sempre causados pela desgraça das ditaduras.
O livro chegou-me na manhã de ontem, sábado, pela atenção do fraterno amigo, o poeta Hunald Alencar, que veio com Nigro, no final de semana, rever a solaridade de Canindé. Há uma dedicatória gentil da autora, a quem externo desculpas, por não ter sabido do lançamento, onde iria rever todos, os agora encanecidos. E tão jovens, naquele tempo. O essencial é que, laços da juventude, nunca foram inteiramente desfeitos. Apesar de tantas dúvidas, sobretudo de tantas indignidades com que estão a afrontar aqueles, como João Bosco, que sofreram tanto, alimentando a ideia generosa , jamais argentária, muito menos hedonista, ou cínica. E tão cínica que se mistura até com o cinismo ultrajante de um capadócio desavergonhado como Eduardo Cunha.