AS LEMBRANÇAS DE MURILO MELLINS

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Publicada em 31/12/2015 às 16:23:00

Neste começo de janeiro o memorialista Murilo Mellins anda um tanto triste. Lembra-se do aniversário que faria dia 3 o amigo Decinho, sempre comemorado com muito uísque, apesar do dinheiro escasso. O scotch era falsificado, caseiro, e colocado em garrafas de Old Parr através de um sistema engenhoso que Nelson de Rubina, especialista em todas as tramoias, ensinava a fazer. As ressacas eram demolidoras.
Murilo, para vencer a tendência depressiva que os Natais despertam, vai rememorando casos e alinha episódios relacionados ao ridículo moralismo da província subjugada pela hipocrisia. Dois deles:
A empresária da moda Dona Vivinha tinha uma ¨maison¨ que levava o seu nome, e era frequentada pela grã-finagem com dinheiro, ou fingindo que o tinha. Havia um único modelo de maiô, era discretíssimo, inteiro, e com um saiote que descia até a metade das coxas. Junto estava escrito: Traje de banho permitido pela Ação Católica.
Esperava-se com muita ansiedade, naturalmente entre os homens, o anunciado espetáculo da performática vedete Luz Del Fuego. Ela exibia-se nua, tendo a envolvê-la uma jiboia que lhe cobria o sexo, enrolando-se pelas coxas e subindo por entre os seios. Com essa jiboia Luz Del Fuego fazia uma coreografia sensual, a maior ousadia da época, tolerada em alguns palcos do Rio e São Paulo.
O espetáculo em Aracaju era um desafio às normas, conveniências e fingimentos vigentes. Seria no Cinema Rex, na rua Itabaianinha, local hoje da agência central do Banco do Nordeste. No dia, formou-se, com antecedência de horas, enorme fila de marmanjos excitados. Aparece então o Chefe de Polícia, professor Monteirinho, para comunicar, até contristado, que, a pedido do Arcebispo o espetáculo fora vetado pela polícia. No mesmo instante passa em frente o automóvel Ford, preto, dirigido pelo Arcebispo, que viera observar se a ordem estava sendo cumprida. Recebeu uma vaia estrepitosa e saiu cantando pneus.