Carnaval de rua em São Paulo confirmou anseio de ocupação de espaços públicos

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Publicada em 19/02/2016 às 22:32:00

Nos últimos anos, a discussão sobre o uso dos espaços públicos da cidade de São Paulo se tornou um assunto recorrente. Diversos movimentos, especialmente na região central, têm organizado festas, atividades culturais e outras formas de ocupação lúdica de ruas e praças.
Nessa linha, estão o movimento A Batata Precisa de Você, que promoveu diversas formas de ocupação no Largo da Batata, zona oeste paulistana, e o coletivo Baixo Centro, que organizou festas nas ruas do centro. No ano passado, um grupo de ativistas tentou ocupar o terreno de um antigo colégio na Rua Augusta, também na região central, para reivindicar que a área se transformasse em um parque, contrariando interesses de duas incorporadoras imobiliárias.
O programa Rua Aberta, da prefeitura paulistana, abriu para pedestres e ciclistas várias vias da cidade. Com o projeto, todos os domingos, a Avenida Paulista e outras ruas da cidade são fechadas para os carros e transformadas em ruas de lazer para os pedestres e ciclistas. Nesse contexto, também estão os blocos de rua, que no último carnaval registraram crescimento de 40%, segundo os dados da administração municipal.
"O que a gente está vendo em São Paulo é que as pessoas começaram a vir para a rua. O crescimento do carnaval é um demonstrativo disso", diz a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), Rosana Miranda. "Eu acho que é o início de uma mudança de comportamento na cidade de São Paulo, não é uma coisa pequena isso que está acontecendo", enfatiza.
"São Paulo vem passando nos últimos anos pela construção de um clima de abertura dos espaços públicos na cidade", diz o professor e pesquisador da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), William Nozaki. "Isso de alguma maneira tem a ver com um clima de novos atores sociais que têm surgido, que têm se organizado em coletivos, grupos que têm trabalhado com linguagens artísticas", completa.
A conexão entre as questões urbanas e sociais e o carnaval é explícita no Blocolândia - bloco de carnaval que reúne usuários de drogas e trabalhadores dos serviços de saúde, assistência social e organizações não governamentais que atuam na área conhecida como Cracolândia. "A gente está dentro do mesmo objetivo de promover a ocupação do espaço público. Eles [usuários de drogas] estão na rua, mas estão marginalizados. A gente está aqui como artista, como cidadão e pessoa que quer pular o carnaval. Não como doente ou ladrão", disse a coordenadora pedagógica do Projeto Oficinas e uma das responsáveis pelo bloco, Laura Shdaior.
A mobilização não é nova, segundo o professor William Nozaki, porém, ganhou força a partir do momento que a prefeitura passou a adotar medidas para potencializar o uso das áreas comuns da cidade. "Esse movimento vem surgindo em São Paulo desde a virada da década de 1990 para os anos 2000. Depois, passou por um momento mais difícil nas gestões dos prefeitos José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD), com clima de fechamento e esvaziamento do espaço público", diz Nozaki, que foi coordenador do projeto Direito à Cidade da prefeitura, de 2013 a 2014.
Ações como o fechamento de ruas, eventos ao ar livre e instalação de mobiliário urbano são algumas das medidas que, na opinião da professora Rosana Miranda, ajudaram a incentivar a mudança de comportamento da população. "O estímulo ajuda as pessoas a se apropriarem do espaço público e perceber que a presença delas nas ruas é que diminui a violência. Quanto mais gente for para a rua, quanto mais gente estiver usando o espaço público da cidade, menos a cidade fica violenta".
Algumas ações, como a expansão de ciclovias, atendem, de acordo com Rosana, antigas demandas dos paulistanos. "Essa coisa dos ciclistas é uma luta que tem mais de 25 anos. É uma luta muito antiga. No entanto, você vê como demora para se implantar uma medida de infraestrutura", destaca. (Agência Brasil)