Pesadelo distópico

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Para poucos e bons
Para poucos e bons

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Publicada em 19/02/2016 às 22:33:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não é música pra tocar no rádio, não vai fazer a alegria da juventude rebelde, apenas alguns poucos vão se dar ao trabalho de escutar. O split dos projetos Música das Cinzas e Satvrn Satvrn, tocados respectivamente por Alessandro Santana (aka Cabelo) e Aquino Neto, contudo, transforma o alheamento imposto pelo próprio experimentalismo (esse substantivo tão maltratado pela crítica musical, mundo afora) numa espécie de argumento. Não há concessão. Nas oito faixas aqui reunidas, a trilha de um pesadelo distópico.
O exercício criativo, por ele mesmo. No texto que acompanha o registro, a dupla explica o seu propósito. Trata-se de expurgar uma inquietação mais ou menos indefinida. No impulso estritamente musical, por assim dizer, a sua própria justificativa.
Além da faixa em streaming, para reprodução 0800 na plataforma Bandcamp, apenas 20 cópias físicas, em CD-R. Para poucos e bons.
O split - Satvrn Satvrn é fruto da imaginação de Aquino Neto, para quem os seres humanos não são as únicas formas de vida, significando uma fração do todo dentro do universo, em cujo trabalho é possível intuir, da sonoridade aos títulos, um caráter exosférico, por assim dizer.
Enquanto isso as peças de Alessandro Santana e a sua Música das Cinzas parecem carregadas de existencialismo transformado em narrativas sonoras e experiências estéticas acusmáticas, nas quais qualquer material sonoro pode ser utilizado.
As faixas 'Intro' e 'Motivacional', compostas em parceria, provam a consonância na diretiva de uma música nova, desprendidas de vínculos, compromissada apenas com o som, o processo criativo e a livre iniciativa da produção artística, independente de tudo o mais. O importante é por pra fora a inquietação do indivíduo, abrigo vital da criação, sem a qual o sujeito definha ou explode.