Novas coisas velhas

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Publicada em 22/03/2016 às 14:19:00

* Raymundo Mello

Nasci nos anos 30, em São Cristóvão-SE, e meus primeiros anos morei com minha família em Buquim-SE (assim mesmo, Buquim - até hoje não sei por que passou a Boquim), uma cidade linda, que tinha uma igreja católica, uma 'praça do coreto' - onde nunca existiu um -, um médico (meu pai), um cirurgião-dentista - 'Celso Oliva'-, um sacerdote - 'Padre Firmino' -, um cartório - 'senhor Barbosa' -, uma 'Pharmácya Brazil' (assim mesmo), um cinema do senhor 'Lúcio Leite', um hotel e uma hospedaria, 'Hermes Fontes', seus pais e irmãs, 'Jacomildes Barreto', 'Lacy Rocha', uma agência do 'Banco Mercantil Sergipense' gerenciada por 'José dos Santos Mendonça', um salão de barbeiro do 'Mestre Santinho', um rábula, um advogado - 'Dr. Waldemar Fortuna' -, a loja do senhor 'João Pacífico', um armazém que não lembro o nome, um bar com salão de bilhar (na esquina da rua da casa onde morávamos), um quartel da polícia com delegado, um sargento, um cabo e três soldados. De vez em quando, quando o tempo "esquentava", chegava um tenente para manter a ordem - o mais famoso deles, 'Tenente Benedito'. E no quartel, também, alguns presos; essa parte era horrível: grades reforçadas e presos estendidos no chão - às vezes, à noite, ouviam-se gritos, sons de pancadas e "cale a boca senão apanha mais".
Mas tinha também o 'Grupo Escolar Severiano Cardoso', onde meus irmãos estudaram, e, defronte, a escola particular da 'Professora Rosalva', na qual apurei o uso das primeiras letras que me foram ensinadas por minha irmã 'Aydil' (b-a-bá, c-a-cá, etc...) e os números de 0 a 10.
E tinha duas áreas inesquecíveis (acho que ainda existem): a "Fonte da Mata" - imortalizada na poesia de Hermes Fontes -, arborizada, água minada e um banho especial. Quando as pessoas iam tomar banho, a certa altura do trajeto, ao se notar que lá haviam banhistas, gritava-se: "É homem ou mulher?". E a resposta ressoava: "É homem!" ou "É mulher!"; e os interessados, de acordo com o que ouviam, encaminhavam-se para o grande lago, iam banhar-se - sabonete e toalha nas mãos. Maravilha!
A segunda área era a 'estação da estrada de ferro' - linda, bom tamanho, alegre. As passagens e paradas dos trens movimentavam a cidade e os moradores que, determinados dias, aprontavam-se com suas melhores roupas para ver o trem de passageiros passar, olhar para os passageiros e apresentar os votos de 'boas-vindas' aos que desembarcavam.
Aparentemente, especialmente para as crianças como eu, vivíamos no céu; só depois, muito tempo depois, é que se vinha a saber que "nem tudo eram flores", internamente, às escondidas, 'nas caladas', falcatruas e outros crimes aconteciam, e quando se tinham notícias e esclarecimentos a surpresa era inimaginável - "seu Fulano fez isso? Que horror!". Mas vinha logo o "cale a boca, deixe pra lá. Cuidado para não se comprometer".
Final dos anos 30, início dos anos 40...
Sempre ouvi dizer que "a história se repete". E é verdade. O Brasil tem vivido nos últimos anos uma 'fantasia' inimaginável. Por cerca de 20 anos o país é extremamente bem qualificado perante o mundo, especialmente no setor econômico-financeiro, onde grandes reservas acumularam-se, onde o FMI, segundo foi alardeado, ao invés de emprestar dinheiro, dólares, ao Brasil, recebeu grandes investimentos feitos pelos nossos governantes.
E o Brasil compra refinaria de petróleo nos Estados Unidos, investe em trabalhos de grande vulto no mundo e o povo passa a viver num Brasil feliz, alegre; dinheiro não era problema, tinha-se de tudo. Carnavais aplaudidos no mundo inteiro, copa mundial de futebol, construção de grandes estádios, aeroportos, metrôs, "maravilhas" - agora se sabe - parcialmente construídas e, para que elas sejam concretizadas, quantos bilhões o país terá ainda que gastar? E a fantástica transposição das águas do agonizante rio São Francisco, "para se levar uma cuia d'água a quem tem sede", obra inacabada e interminável, a não ser que outros bilhões sejam aplicados, ou melhor, "investidos". Quando? Não houve jeito de se aceitar primeiro a 'revitalização' das margens do 'velho Chico'. Pobre Dom Cappio, que jogou a sua esperança numa greve de fome. E agora - maravilha! -, patrocinamos "jogos olímpicos".
E tudo, tudo mais que o Brasil e o mundo só agora estão tomando ciência; e, como acontecia no lembrado e querido 'velho Buquim', só que em proporções alarmantes.
Lamento, lamento mesmo, falar nesses assuntos. Já tivemos a "República do Galeão", assim denominada pelos que sofriam interrogatórios nos idos de 64. Agora fala-se na "República de Curitiba", que já inspira medo. Como é que ficamos? Ao invés de tantos recursos, que se apure a verdade e ofereçam um pouco de paz e tranquilidade a nós, simples mortais.
Há de se dizer que nada entendo sobre o assunto. Paciência! Mas não é justo continuar como as crianças simples de Buquim, dos anos 30 a 40.
Por favor, encontrem um final definitivo para o drama do "lava-jato" e das outras lamentáveis ocorrências; que se leve um pouco de esperança e paz para o Brasil. E que ninguém queira "incendiar" esta nação do carnaval, do futebol, da alegria.

* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br