AS OLIMPÍADAS E OS NOSSOS INSUCESSOS

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Publicada em 12/08/2012 às 16:50:00

Nesta Olimpíada o desempenho do Brasil pode ser classificado como algo  medíocre. Nada   disso. Agora em Londres, antes em Pequim,Barcelona, Moscou,  Atlanta, e em tantos outros lugares os nossos   raros atletas têm conseguido apenas , vez por outra,  dar aqueles dois passos heroicos na sofrida escalada ao pódio.

Mas, felizmente, conseguimos transformar o medíocre em festiva exaltação. Fizemos assim agora, quando contabilizamos a centésima medalha conseguida desde a primeira participação nossa numa olimpíada, já lá se vão mais de oitenta anos. E festejamos a conquista como se fosse uma expressiva demonstração  do nosso sucesso esportivo. E estamos também a comemorar o recorde de medalhas que conseguimos nesta olimpíada, embora figuremos num desenxabido posto muito abaixo  do vigésimo lugar.  Há quem considere isso uma notável evolução.

Mas, o Brasil é hoje um país  de 200 milhões de habitantes, e a sexta economia do mundo. Ainda que entre tropeços , nos encaminhamos, em breve, para ultrapassar a França e nos tornar a quinta.
A Jamaica é um paisinho com território que não chega à metade da exígua superfície de Sergipe, com uma população aproximadamente igual à nossa.  A ilha caribenha, cercada de marinas por todos os lados, uma Meca para os turistas em busca de sol e excentricidades, se faz conhecida no mundo pela sua musicalidade,  e agora  exibe na arena londrina o vigor digno e altivo dos seus fantásticos atletas. À frente deles Usain Bolt, raro exemplar  de vencedor,  capaz de colecionar medalhas olímpicas e recordes mundiais.
O que nos falta para imitar tantos outros países pequenos  onde a população parece galvanizada pela atividade esportiva,  e,  por isso, seus atletas  deixam bem distantes   os nossos?
Para começar, teremos de alterar fundamentalmente a nossa concepção sobre esportes.

Cometemos o fatal equivoco de classificar como desportistas todos os cervejeiros flácidos, barrigudos, que  frequentam os estádios de futebol, onde também se incluem as torcidas organizadas repletas de delinquentes.  Precisamos, ao mesmo tempo, fazer descer dos numerosos pódios da incompetência e da gatunagem, aqueles dirigentes, os ¨cartolas" , também chamados  desportistas, que não estão apenas encastelados na fedorenta estrutura do nosso futebol, mas se espalham desgraçadamente pelas federações, ou  confederações de quase todos  as outras modalidades  esportivas.  A vergonha diante do México é a maior prova dos  calamitosos desacertos.

É uma ofensa aos valores do esporte chamar de desportistas esses sedentários absolutos que só demonstram alguma forma de agilidade nas mãos ávidas a percorrer  as verbas disponíveis.
 Quando há competência e honestidade no comando, logo surgem exemplos de sucesso entre os que são verdadeiramente desportistas. Veja-se o caso do vôlei , do basquete,  em um certo período, do próprio futebol  que foi às alturas, enquanto os cartolas ainda não haviam  aderido completamente à rapinagem.

 De nada adianta ter as vistas voltadas para a próxima olimpíada que será aqui no   Rio de Janeiro em 2016.  Mesmo se revelarmos excelente   capacidade de gestão   no preparo dos atletas,   se forem vencidas as tentações dos superfaturamentos na construção de todo o aparato olímpico, poderemos ter, e com certeza teremos,  um maior número de medalhas. Talvez fiquemos entre os quinze primeiros, o que seria resultado inédito.

Mas, enquanto isso, uma grande parte da juventude brasileira, estará  embalada pela droga,  , ou passivamente comendo  e engordando  na rotina diária dos shoppings e lugares da moda. Esta é a parcela obesa ,  consumidora da fatal ração  que  é a mistura do Mac Donald com a Coca-Cola.Uma   outra parte,   sem renda para entupir-se de porcarias, às vezes passando fome, estará  matando e morrendo na guerrilha diária das periferias. Serão       futuros habitantes do inferno das penitenciárias superpovoadas.
  Hoje, no Brasil, são raras as escolas da rede pública onde existem locais adequados   para a prática do esporte. A Educação Física é adendo inexpressivo e deslembrado na rotina arcaica de um ensino   público que não vem conseguindo  ir além da produção de analfabetos funcionais, ou seja, dos que não conseguem alinhar no papel um pensamento,  interpretar um texto, ou transitar pelas quatro operações.

 Como pensar em esporte na escola se nela estão sendo maltratados o português, a matemática?
O esporte terá de ser encarado entre nós, não como um caminho em direção ao pódio, ao ideal olímpico, que se restringe a uns poucos e privilegiados frequentadores dos centros de excelência.
O que precisamos, em primeiro lugar, é massificar o esporte,  investir nessa massificação, a começar pela escola, depois,  nas universidades, aproveitar as nossas condições tropicais de pais ensolarado, onde se pode até ao ar livre treinar, praticar esportes durante os doze meses do ano.  Um finlandês, um sueco, um norueguês, que pratique a vela, por exemplo, não terá mais de  quatro  meses   boas  condições  para velejar. Mas eles surgem como vencedores nas olimpíadas.  O mar é grátis , o vento nada custa, o sol nos é ofertado todo dia, por que não  os aproveitamos?
 Se com seguirmos espalhar quadras de esporte e professores  por este país imenso, colocar na água barcos a vela ou a remo,  incentivando os jovens a saírem   da lassidão,  tirá-los  do sedentarismo, criando atrativos , estímulos,  para que eles pratiquem esportes, se obtivermos  êxito em levar para as quadras, para a água, para as pistas, milhões e milhões de pessoas jovens,   em maioria,  evidentemente, no meio deles surgirão milhares de  vocacionados,  os futuros campeões. E aí iremos encher os centros esportivos de excelência com os que revelarem maiores aptidões,   e   será refinada   a elite que competirá nos campeonatos, nas olimpíadas. Aí sim,estaremos  bem próximos do ideal olímpico que não se resume  à conquista de medalhas, mas passa, prioritariamente, pela visão do esporte como ferramenta  para a construção de uma sociedade melhor.