Decisão ponderada

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Dominguinhos, xilogravura de Elias Santos
Dominguinhos, xilogravura de Elias Santos

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Publicada em 03/07/2016 às 00:06:00

A opção do governador Jackson Barre-to pelo nome de Edvaldo Nogueira (PCdoB) como candidato do grupo a prefeito de Aracaju levou em consideração os números das pesquisas internas encomendadas pelo PMDB e a possibilidade de reaglutinação do bloco nas eleições gerais de 2018. No período de pré-campanha, o governador estimulou candidaturas aliadas, inclusive a do deputado federal Valadares Filho (PSB), mas advertia que próximo ao período das convenções anunciaria quem seria o seu candidato.

Valadares Filho se desgarrou do grupo a partir da opção do seu pai, senador Valadares, em apoiar o impeachment da presidente Dilma Rousseff antes mesmo de sua posse para o segundo mandato. Mesmo tendo recebido o apoio do deputado federal Fábio Mitidieri (PSD), o candidato do PSB se afastou aos poucos dos partidos mais próximos ao governo do Estado.
A possibilidade de o PMDB ter lançado a pré-candidatura do ex-secretário José Sobral serviu de pretexto para que supostos aliados do governador enxergassem uma tentativa de garantir todos os espaços para o seu partido. A candidatura do PMDB foi estimulada da mesma forma que a de Valadares Filho e a de Edvaldo Nogueira. E um dos critérios sempre ressaltado era o de que quem estivesse melhor posicionado nas pesquisas seria o candidato.

Nesse período, o maior problema de Jackson Barreto foi superar os argumentos de dirigentes peemedebistas que enxergavam numa eventual candidatura de José Sobral a possibilidade de reassumir o comando da PMA e ficar mais fortalecido para 2018. Deputados, vereadores e dirigentes do PMDB chegaram a elaborar documento defendendo a candidatura própria como instrumento para fortalecer o partido, mesmo que isso representasse riscos de uma ruptura com os aliados.
Jackson recebeu o documento em uma reunião realizada na véspera de São João na sede do PMDB e foi enfático ao afirmar que se queria mesmo ter papel preponderante nas eleições de 2018, o PMDB teria que abrir espaços para os aliados nas eleições municipais. O ex-prefeito João Gama, presidente do partido e um dos mais influentes secretários do governo, era um dos mais enfáticos na defesa da candidatura própria. Enxergava que somente com um bom desempenho nas eleições em Aracaju, o partido poderia pleitear candidatura ao governo em 2018.

Depois da argumentação de JB e vendo que os mesmos peemedebistas que haviam assinado o manifesto em defesa da candidatura de José Sobral já estavam mudando de posição, Gama aceitou os argumentos e fortaleceu o discurso de Jackson. Edvaldo já passou o São João comemorando o apoio do governador, que sempre foi uma liderança forte na capital e, durante muitos anos desde a redemocratização, em 1985, foi responsável pela eleição de sucessivos prefeitos. Nas eleições de 2014, venceu sem dificuldades ao senador Eduardo Amorim em Aracaju, mesmo tendo o prefeito João Alves e a senadora Maria do Carmo Alves no palanque do adversário.

A candidatura de Edvaldo Nogueira, a partir das convenções partidárias, que poderão ser realizadas entre 15 de julho e 10 de agosto, passará a ser a única do bloco do governo em Aracaju. A viúva do ex-governador Marcelo Déda, Eliane Aquino, deverá ser a candidata a vice-prefeita numa indicação do PT, que apesar do desgaste a nível nacional em função dos escândalos descobertos pela Operação Lava Jato e o impeachment da presidente Dilma ainda é forte em todo o Nordeste.
A campanha para a prefeitura de Aracaju vai começar com três candidatos competitivos - além de Edvaldo, Valadares Filho e o prefeito João Alves - e fatalmente será decidida em segundo turno, o que só ocorreu em uma oportunidade - 1996 - quando Gama acabou sendo eleito, numa disputa que tinha também Ismael Silva e Maria do Carmo.
A decisão de JB em relação à prefeitura de Aracaju foi muito ponderada e privilegiou interesses futuros do grupo.

Espalhando tentáculos

Em 2014, o prefeito de Nossa Senhora do Socorro, Fábio Henrique (PDT), conseguiu a proeza de transformar a sua mulher Sílvia Fontes, desconhecida no Estado e considerada arrogante no trato com o povo pobre de Socorro, na deputada estadual mais votada do Estado. Sua atuação na Assembleia é pífia, mas garante espaços necessários para os ambiciosos planos do marido.
Agora Fábio Henrique espalhou dois irmãos para ampliar seus tentáculos no Estado e garantir uma candidatura ao Senado, em 2018: Adilson Júnior será candidato a prefeito de São Cristóvão; outro, o radialista Jason Neto, disputará vaga na Câmara Municipal de Aracaju. E ainda tenta impedir a candidatura de José Franco para eleger um protegido na prefeitura de Socorro.
Até aliados acham que Fábio Henrique está indo com muita sede ao pote.

O grupo Amorim

Desde o início do ano, o senador Eduardo Amorim (PSC) ensaia o lançamento de sua candidatura a prefeito de Aracaju. Ninguém nunca acreditou muito nessa possibilidade, porque uma nova derrota praticamente o eliminaria da disputa nas eleições gerais de 2018, quando o grupo deve apostar numa candidatura majoritária do deputado federal André Moura, que passou a ter destaque em Brasília a partir da sua fidelidade ao presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, que foi também responsável pela sua indicação para a liderança do governo Temer na Câmara.
Amorim tentou assumir o controle do PSDB, mas foi golpeado pelo prefeito João Alves que interferiu junto ao senador Aécio Neves (PSDB-MG) e garantiu o comando do partido em Aracaju para o vice-prefeito José Carlos Machado. Mesmo assim, o senador continuou tentando viabilizar a sua candidatura, mas num momento crucial do processo eleitoral resolveu pagar promessas com a família no santuário de Fátima, em Portugal, onde ainda se encontra.
Retorna esta semana, mas aliados não discutem mais a sua candidatura e sim a quem apoiar em Aracaju. Na sexta-feira, André Moura deixou claro que preferia uma aliança com o PSB de Valadares, já pensando nas eleições de 2018. Parte do grupo, a exemplo do deputado federal Laércio Oliveira (SDD), quer a manutenção da aliança com João Alves.
O martelo só deverá ser batido no último dia do prazo previsto no calendário eleitoral.

Desprezo pela Saúde

O prefeito João Alves Filho iniciou uma ofensiva publicitária nos últimos dias permitidos pela legislação eleitoral para mostrar obras que teriam sido realizadas em sua gestão e que não seriam do conhecimento da população, e da melhoria de serviços oferecidos à população. Entre os "serviços de qualidade" inclui o setor de Saúde em greve há 32 dias e sem qualquer perspectiva de negociação por parte da prefeitura de Aracaju
São 10 categorias em greve, incluindo médicos, enfermeiros, dentistas e atendentes de todos os postos de saúde e das UPAs da zona sul e zona norte. O atendimento é reduzido a 30% e mesmo assim somente em casos considerados de emergência. Os servidores querem apenas o reajuste prometido e os salários em dia.
Ossos duros de roer fazem parte da dieta de qualquer gestor público. A disposição para equacionar eventuais diferenças entre as condições materiais dos cofres públicos e as necessidades da população e do próprio funcionalismo está entre os ossos do ofício. Ao se recusar a receber os servidores em greve, o prefeito demonstra, portanto, uma personalidade incompatível com o cargo.
O prefeito João Alves Filho tem experiência de sobra, passou a vida inteira aboletado na administração pública, desde a nomeação como prefeito biônico da capital sergipana, durante a ditadura militar. Deveria demonstrar mais habilidade para superar as questões menores do dia a dia da cidade.

Dinheiro para o décimo
O governador Jackson Barreto já bateu o martelo: vai vender grandes áreas pertencentes ao Estado em leilões públicos para capitalizar recursos para o pagamento do 13º salário dos servidores estaduais.
O governo já tem autorização da Assembleia Legislativa e pretende arrecadar cerca de R$ 150 milhões com a venda do terreno do antigo aeroclube de Aracaju, na avenida Maranhão, e do complexo onde funciona a Codise, Secretaria do Meio Ambiente e Secretaria do Desenvolvimento Econômico, no DIA. Além dos prédios já edificados, a sede da Codise dispõe de ampla área numa região carente de grandes terrenos.
Dirigentes dos órgãos que serão afetados com a medida já estão procurando áreas disponíveis em outros prédios públicos, para evitar novas despesas com aluguel. Codise e Desenvolvimento deverão se alojar em prédio anexo à Cehop, também no DIA, onde funcionava a Secretaria de Infraestrutura; a Semarh deverá ser transferida para o edifício Estado de Sergipe, o "Maria Feliciana", no centro de Aracaju, que possui vários andares desocupados.