DA VILA OLÍMPICA AO SUPERMERCADO

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Publicada em 30/07/2016 às 20:12:00

Fiscais do Ministério do Trabalho chegaram rápidos e pressurosos à Vila Olímpica, quando uma equipe de mais de 600 trabalhadores começava um serviço de emergência para reparar falhas registradas em alguns dos trinta prédios com mais de 3 mil apartamentos. As torneiras e chuveiros que não funcionavam, esgotos entupidos, paredes manchadas, ar condicionado desligado, lâmpadas que não acendiam, foram alguns dos problemas detectados pela delegação da Austrália, que reclamou e gerou pelo mundo uma sucessão de desprimorosas noticias em relação ao Brasil e à nossa capacidade para realizar uma olimpíada, privilégio exclusivo do clube restrito de países ricos, só quebrado pela África do Sul, e agora, pelo Brasil. Os fiscais multaram, criaram todo tipo de dificuldades, alegando abusos na contratação e nos horários alongados das jornadas de trabalho.
Havia urgência, era preciso correr contra o tempo, fazer jornadas de trabalho incomuns de até 15 horas. Tudo isso era emergencial, duraria apenas uns três ou quatro dias. Os fiscais não enxergaram a dimensão do problema, a necessidade premente de uma ruptura com a ortodoxia burocrática que se encastela na nossa legislação trabalhista, para que tudo ficasse bonito, limpinho e operacional nos grandes edifícios, que logo estariam abrigando atletas do mundo todo.
Os fiscais complicaram tudo, agindo com espantosa insensibilidade e quase inviabilizaram os consertos. Enquanto eles se esmeravam em cumprir suas inoportunas tarefas fiscalizatórias, os trabalhadores esperando o desfecho do imbróglio maldiziam os burocratas que lhes tiravam a oportunidade de ganhar um inesperado dinheirinho extra em tempos difíceis de desemprego.
Na Vila Olímpica os fiscais sabiam que logo virariam noticia, ganhariam destaque na mídia brasileira e internacional.
Já por aqui, nos supermercados de Aracaju, onde em alguns deles se cometem as maiores iniquidades, graves desrespeitos à caduca legislação trabalhista, e à dignidade humana, parece que não chegam os fiscais. Ou se chegam, não enxergam as condições humilhantes de quase trabalho escravo, a rotina dos funcionários de grande parte dos supermercados aracajuanos. Os caixas, na sua maior parte mulheres, são os mais submetidos ao regime semi-escravo de trabalho, e isso eles fazem à vista de todos, inclusive, sem duvidas, dos fiscais e dos dirigentes dos sindicatos dos trabalhadores, todos, calados e quietos.
Nos seus países de origem essas redes de supermercados que aqui operam, tratam bem melhor, pagam bem mais aos seus trabalhadores, talvez porque lá exista fiscalização, e os sindicatos sejam menos omissos. Ou coniventes...