200 golpinhos pela arte contemporânea

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Arte contemporânea, para quem?
Arte contemporânea, para quem?

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Publicada em 01/08/2016 às 21:59:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Ano passado, quando Agnaldo Farias visitou a aldeia, atendendo convite do projeto 'Etnografia da Viagem', falou para um auditório vazio. A curadoria da 29ª Bienal de São Paulo não bastou para despertar a curiosidade dos artistas sergipanos. Agora, o professor volta a compartilhar o conhecimento acumulado ao longo da própria trajetória, reconhecida em âmbito internacional, aqui com os nossos, à margem dos grandes circuitos. Desta vez, pela bagatela de 200 golpinhos. O interesse ainda é tímido, mas já supera a completa indiferença da primeira oportunidade, quando o notável jogou saliva fora a expensas do poder público federal. Circunstância curiosa, reveladora de um ambiente mesquinho.

Nem mereceria letra de imprensa, não iluminasse o descompasso flagrante entre uma produção cada vez mais ambiciosa e a situação do pensamento entre os nossos. O mencionado 'Etnografia da Viagem', da dupla Alan Adi e Ivan Masafret, por exemplo, pretendia uma reflexão sobre o lugar da criação em uma geografia essencialmente excludente. Vânia Leal (leia-se Arte Pará) e Matias Monteiro (Rumos Itaú Cultural), dois peixes grandes, colaboraram com a discussão. Os nativos, no entanto, simplesmente não apareceram. Ninguém daqui deu um pio.

Arte contemporânea, para quem? Na Academia, uma redoma de vidro emborcada sobre o hálito de filósofos defuntos, os iluminados permanecem ignorantes da experiência cotidiana, alheios às provocações e a inteligência que florescem além da própria zona de conforto, indispostos ao diálogo. Nos periódicos, páginas e páginas de deserto crítico. Explica o status rebaixado das galerias, visitadas apenas quando convertidas em cenário de coluna social. Muita pose, prosecco rolando solto. E ainda botam a culpa no pinico de Duchamp.
Considerado o contexto, o valor cobrado pelas palavras e, sobretudo, a presença de Agnaldo Farias é até modesto. Idéia é semente. E no que diz respeito às implicações do exercício artístico, o território Serigy é árido como a peste.