Machado e a corrupção na PMA

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\'Pedaços de Aracaju\', de Ana Denise
\'Pedaços de Aracaju\', de Ana Denise

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Publicada em 07/08/2016 às 00:00:00

O trecho da gravação da declaração do vice-prefeito José Carlos Macha-do (PSDB), dizendo que a equipe do prefeito João Alves "não quer trabalhar, só quer roubar" e que "João está cagando (sic) para isso", divulgada através das redes sociais, foi retirado do contexto de uma conversa que tivera com um suposto amigo, como ele mesmo declarou, mas deve revelar mesmo o sentimento que tem o vice-prefeito em relação aos secretários da Prefeitura de Aracaju.

Em suas relações políticas e empresariais, José Carlos Machado é considerado um homem muito pragmático e sem papas na língua. Diz abertamente o que pensa e nunca demonstrou qualquer preocupação com as consequências de suas declarações. A apreensão com a divulgação dessa gravação se deu unicamente em função do momento eleitoral. Em muitas outras oportunidades, Machado já havia manifestado inconformismo com a falta de competência e ganância da equipe do prefeito João Alves Filho, chegando, em alguns casos, até a citar nomes.

A declaração acabou afastando de vez José Carlos Machado da vaga de candidato a vice-prefeito na chapa de João Alves, que parece ter sido registrada apenas para proteger os candidatos a vereador dos partidos que continuavam leais à administração municipal. O seu substituto como candidato a vice, o radialista e vereador Jailton Santana (PSDB), não representa absolutamente nada do ponto de vista eleitoral e já tinha decidido não disputar a reeleição para a Câmara Municipal. Jailton é também um dos 15 vereadores envolvidos na 'Operação Indenizar-se' e que certamente será denunciado pela polícia e Ministério Público antes mesmo da eleição de outubro.

Na sexta-feira, o delegado geral da Polícia Civil, Alessandro Vieira, determinou a abertura de inquérito policial para investigar as suspeitas de corrupção levantadas pelo vice-prefeito José Carlos Machado e, à tarde, a delegada Danielle Garcia Soares, do Departamento de Crimes contra a Ordem Tributária e Administração Pública (Deatop), expediu intimação. O promotor Henrique Cardoso, responsável pela apuração dos crimes cometidos por deputados no caso da subvenção da Assembleia Legislativa, também já acompanha o caso.

Machado deve depor na terça-feira e certamente tentará fugir da responsabilidade, repetindo o que disse através de nota também pelas redes sociais: "Fui surpreendido com a divulgação de um áudio onde claramente emerge a má fé de quem gravou um diálogo, e do qual pinçou e montou frase conforme seu interesse. A frase, no contexto de diálogo mantido há alguns dias, decorreu de um desabafo com pessoa da minha suposta confiança, que me provocara. Constato que a gravação, adredemente (intencionalmente) planejada, objetivou com toda clareza me atingir no momento mais decisivo do processo de escolha de candidaturas às eleições de outubro".

É como se um homem com 40 anos de vida pública, exercendo os mais importantes cargos na esfera da administração estadual, como secretário de Estado diversas vezes, deputado estadual, deputado federal, vice-governador, vice-prefeito, empresário de grande sucesso e, segundo sua última declaração à Justiça Eleitoral, um milionário, fosse um tolo.

Machado deve pensar mesmo o que declarou em relação ao secretariado da PMA e a omissão de João. Estava no limite porque, apesar de milionário, não possui votos para disputar uma eleição majoritária. A sua última chance de se transformar em prefeito da capital seria como candidato a vice-prefeito de João Alves. Em caso de vitória, certamente o prefeito pleitearia a condição de candidato a governador em 2018, apesar dos 75 anos de idade, e o vice se transformaria em prefeito titular. Foi rifado da chapa e João não parece ter condições de levar a campanha adiante.

Nesse episódio, um fato chama a atenção: em nenhum momento o ativo presidente do Tribunal de Contas do Estado, conselheiro Clóvis Barbosa de Melo, se manifestou e anunciou uma auditoria para investigar a corrupção dos secretários e a omissão do prefeito denunciadas por José Carlos Machado. Foi surpreendido com as ações da Polícia Civil e o MPE. Em outros momentos, como no caso da repentina licitação emergencial do lixo, determinou inspeções extraordinárias até ser barrado por uma decisão judicial.
Como foi excluído do processo eleitoral, Machado estará disponível em tempo integral para atender todas as intimações da Policia e Ministério Público. E o TCE pode até se redimir nos próximos dias.

Candidaturas consolidadas
Ao contrário de João Alves, o deputado federal Valadares Filho (PSB) e o ex-prefeito Edvaldo Nogueira (PCdoB) souberam construir com eficiência suas candidaturas à PMA. Valadares fez a opção de abandonar completamente o bloco que vem participando juntos de eleições no Estado desde a consagradora vitória de Marcelo Déda, em 2006. Será o seu primeiro teste na capital com um novo bloco.
A adesão do grupo dos Amorim e do deputado federal André Moura garantiu a Valadares Filho uma coligação com 13 partidos (PSB/PSC/PR/PP/PDT/PSL/PTB/PTC/PMB/PRTB/PSDC/PPL/SD/PV/PROS), da mesma que ocorreu com o senador Eduardo Amorim na campanha para o governo em 2014. É uma aposta de risco, porque pesquisas qualitativas mostram que a imagem do grupo não é bem vista pelo eleitorado da capital, mesmo com as mudanças políticas a nível nacional e a chegada de André à liderança do governo interino de Temer na Câmara dos Deputados.

O deputado estadual Antônio dos Santos (PSC) é o candidato a vice-prefeito e foi escolhido pela sua influência junto aos evangélicos, hoje preocupação de todos os candidatos.
Edvaldo Nogueira conseguiu o objetivo de manter único o grupo que elegeu Jackson Barreto em 2014, com a previsível saída do PSB. Vai disputar numa coligação com a participação do PCdoB/PT/PMDB/PSD/PRB/PTdoB/PTN/PRP. Primeiro conseguiu evitar a candidatura própria do PMDB, e, a partir da adesão dos Amorim a Valadares, recuperou o apoio do PSD do deputado federal Fábio Mitidieri e do PRB do pastor Heleno.
A fotojornalista Eliane Aquino (PT), viúva do governador Marcelo Déda, é a candidata a vice-prefeita, indicação festejada por todos os aliados. O governador Jackson Barreto é a maior liderança do bloco, independente dos problemas financeiros enfrentados pela administração.
Completam a disputa pela PMA, o vereador Dr. Emerson (Rede), o comerciante João Tarantela (PMN), a professora Sônia Meire (PSOL) e a operária Vera Lúcia (PSTU).

Fim de carreira

O vai-não-vai do prefeito João Alves Filho nos últimos dias sobre disputar ou não a reeleição em outubro, não deixa dúvidas de que está optando por um melancólico fim de carreira. Dia 04, quinta-feira, 21 horas, depois de 15 dias de indefinições, João Aves reúne os vereadores e dirigentes dos partidos que ainda aguardavam a sua decisão para avisar que não seria candidato à reeleição. Foi um deus nos acuda.
Sexta-feira, 05, 13 horas: João Alves passa a disparar telefonemas para os mesmos vereadores e dirigentes partidários para anunciar que havia mudado de decisão e que seria candidato a prefeito. Precisava apenas arrumar um candidato a vice, já que não aceitaria mais José Carlos Machado, em função das suas declarações sobre corrupção na administração municipal.
No final da tarde, uma reunião numa pequena sala na sede do DEM, na Avenida Beira Mar, em frente ao calçadão que passou toda a administração para construir, foi fechada a chapa com Jailton Santana como candidato a vice. Não houve discursos, nem qualquer animação. O clima de velório não escapou das fotos distribuídas pelo eficiente repórter fotográfico Diógenes Di, que acompanha a senadora Maria do Carmo. Na saída, João posou para fotos com o novo vice e o deputado estadual Robson Viana (PEN), que manteve o apoio do seu partido.
Deprimente foi ver João Alves sendo amparado pela filha Ana Alves, durante a entrevista coletiva concedida na saída do prédio. As imagens exibidas durante entrevistas às emissoras de TV mostram claramente isso, como se o prefeito não tivesse, de fato, condições físicas para enfrentar uma campanha eleitoral.
João Alves e Maria do Carmo ainda possuem eleitorado cativo na capital, mas é muito pouco para garantir êxito numa campanha renhida como deverá ser a deste ano, com uma candidatura tão atrapalhada quanto a sua gestão na PMA. A péssima avaliação da administração municipal, a falta de conclusão de obras, o desleixo com a cidade, o abandono do povo pobre, a proibição de captação de recursos empresariais para campanhas eleitorais e, agora as cabeludas acusações de corrupção por parte do vice-prefeito José Carlos Machado, praticamente inviabilizam a tentativa de reeleição.
Se fosse em Itabaiana, muita gente já estaria apostando na desistência de João Alves no decorrer da campanha eleitoral.

Bom de palavra

O deputado federal Fábio Mitidieri (PSD) foi o primeiro a apoiar a candidatura de Valadares Filho à PMA. Enfrentou a ira dos líderes de partidos aliados a Edvaldo Nogueira e do próprio PMDB. Desde o início avisou que a coligação do PSB deveria se dar no âmbito de partidos aliados ao governo JB.
Quando Valadares Filho fechou o acordo com os Amorim, Mitidieri se afastou do PSB e assumiu a candidatura Edvaldo Nogueira.