A decadência da cidade

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Publicada em 27/08/2016 às 16:11:00

A campanha eleitoral no rádio e na tevê começou na última sexta-feira, com apenas dois tempos de 10 minutos diários e um pouco mais de 30 dias de duração. É um período muito curto para grandes mudanças no quadro atual, o que acaba beneficiando quem sai na frente.
A campanha deverá ser decidida mesmo entre o ex-prefeito Edvaldo Nogueira (PCdoB), o prefeito João Alves Filho (DEM) e o deputado federal Valadares Filho (PSB), agora num campo oposto ao governador Jackson Barreto, onde sempre esteve. Os demais candidatos - Sônia Meire (Psol), Vera Lúcia (PSTU), Dr. Emerson (Rede) e João Tarantela (PMN) - completam o quadro e possuem grandes limitações eleitorais, a começar pelo escasso tempo na TV.
A pesquisa Ibope divulgada pela TV Sergipe na última terça-feira mostrou que apesar de disputar a reeleição com a caneta na mão e a máquina administrativa da PMA, João Alves terá grandes dificuldades no decorrer da campanha. Aparece em segundo lugar com 18% e no quesito rejeição é campeão absoluto, com 55%. Além disso, a sua gestão é considerada ruim/péssima por 53% da população, 33% acham regular e apenas 13% consideram ótima/boa. São números muito negativos para quem se apresenta como o "responsável pelas maiores obras já realizadas na capital".
Outro dado interessante da pesquisa Ibope não revelado pela TV Sergipe, mas pelo jornal O Globo, é a preocupação da população com a Saúde, área muito negligenciada por João Alves Filho, que retém recursos do Estado e da União e não paga aos hospitais que atendem pelo SUS, caso do São José e agora do Cirurgia, que suspendeu até as cirurgias cardíacas já marcadas. Segundo a pesquisa, Aracaju é a capital com a maior parcela de eleitorado critica a Saúde, onde 61% dos eleitores entrevistados veem o setor como aquele com mais problemas, seguido da Segurança, com 14%.
Apenas este ano, servidores da Saúde de Aracaju - incluindo médicos e enfermeiros - já fizeram 10 paralisações, por atrasos de salários, férias e gratificações, e também a falta de estrutura nas unidades de pronto atendimento e nas clínicas de saúde da família.
A pesquisa Ibope acendeu o sinal amarelo na campanha de Valadares Filho. Além de ter aparecido em terceiro lugar com 15%, alcançou uma rejeição de 28%, índice muito elevado para quem tinha praticamente zero no início do ano. A sua rejeição cresceu rapidamente, a partir do anúncio da aliança com o PSC dos irmãos Amorim e do deputado federal André Moura, além do rompimento com o governo Jackson e o campo mais progressista do Estado.
Edvaldo Nogueira apareceu à frente com 28% e uma rejeição de 27%. O resultado foi festejado por aliados, mas não foi um número excepcional. Edvaldo passou 12 anos seguidos à frente da PMA (cinco anos e meio como vice-prefeito de Marcelo Déda e seis anos e meio como prefeito titular, com uma reeleição em primeiro turno, em 2008), o maior período que uma pessoa já comandou a prefeitura de Aracaju a partir da redemocratização do país, em 1985, e desde que passou a faixa para João Alves, em 2013, esteve se preparando para voltar a disputar o cargo.
Aracaju não possui tradição em decidir eleição em segundo turno. Isso só ocorreu em 1996, quando João Gama (PMDB) derrotou Ismael Silva, na época do PT. Déda em 2000 e 2004, Edvaldo em 2008 e João em 2012 venceram no primeiro turno, o que acaba animando quem inicia o processo eleitoral na liderança.
Os problemas nacionais, a crise financeira dos Estados e municípios, que provoca o atraso no pagamento dos servidores e limitação dos serviços ofertados ao público, questões de segurança, saúde, limpeza pública, mobilidade e a decadência da cidade devem nortear os debates nessa curta campanha eleitoral.

Um discurso velho

O discurso do prefeito João Alves Filho na abertura do programa eleitoral repetiu o da sua campanha de 2006, quando perdeu o governo do Estado para Marcelo Déda, trocando apenas o nome dos presidentes. Na campanha para governador acusava Lula e agora Dilma de perseguição pela "sua luta contra a transposição do Rio São Francisco".
João Alves disse que na sua próxima gestão poderá cumprir com suas propostas de governo por ter uma excelente relação com o presidente interino Michel Temer, e pelo fato de que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), e o ministro da Educação Mendonça Filho (DEM) serem do seu partido, podendo colaborar com a prefeitura.
No programa de governo registrado no TRE, João Alves fala em ampliar o "metrô" da capital, delírio irresponsável de sua equipe, que chupou propostas do prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB). O tal BRT parece não ser mais cogitado pelo candidato do DEM.

São Cristóvão não merece

Ao perceber a péssima repercussão do seu discurso, o ex-prefeito Armando Batalha retirou a candidatura do seu filho Batalha Neto (PRP) a prefeitura de São Cristóvão. A divulgação do vídeo com o discurso deixava claro que a candidatura seria impugnada pela justiça eleitoral. Na convenção, Armando Batalha disse que, em caso de vitória do grupo, seria ele quem sentaria na cadeira de prefeito a partir de 1º de janeiro e que o filho iria para casa. Chegou a pegar no braço do rapaz e empurrá-lo ao dizer que essa foi a forma encontrada para continuar mandando no município, já que estava inelegível e não poderia passar a campanha preocupado em se defender na justiça eleitoral. Uma imoralidade.
Mesmo assim, São Cristóvão continua sendo o município de Sergipe com um maior número de candidatos a prefeito. São oito agora: Marcos Santana (PMDB), Lauro Rocha (PRB), Betão do Povo (PSD), Carlos Vilão (DEM), Erundino Prado (Rede), Gedalva Umbaubá (PTN), Izaias Almeida (PPS) e Professor Luiz Alberto (Psol).

Reuniões em Brasília

Na última quarta-feira, durante audiência com a presidente da Codevasf, Kênia Régia Anasenko Marcelino, o governador Jackson Barreto voltou a solicitar recursos para a dragagem do Rio São Francisco em Telha, na altura da captação de água da adutora do São Francisco, que abastece a grande Aracaju.
O governador deixou claro que sua preocupação se dá pelo seu conhecimento da burocracia. A presidente Kênia Régia explicou que há a necessidade de se vencer a etapa do decreto de emergência pela Defesa Civil do Governo Federal, e que após isso, irá dar os encaminhamentos para repassar os recursos para a superintendência da Codevasf em Sergipe realizar a obra de forma emergencial.
Jackson Barreto informou que gostaria que a própria Deso realizasse a obra. Ele explicou que como a Deso opera a adutora diariamente, tem know-how e conhecimento de causa e pode dar mais agilidade ao processo. "Conversei com o ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho, no dia 11 de agosto, uma quinta-feira. No domingo seguinte, à noite, no dia 14, o presidente Michel Temer me ligou pessoalmente para dizer que estava liberando os recursos. Ele entendeu a urgência e o tamanho do problema. Agora precisamos correr para evitar o pior", afirmou Jackson.
"Minha preocupação é que com a diminuição da vazão do Rio São Francisco pela Chesf [Companhia Hidrelétrica do São Francisco], que já comunicou que vai baixar para 700 metros cúbicos por segundo, teremos uma dificuldade muito grande para captar água para um milhão de pessoas da Grande Aracaju, que é abastecida pela adutora do São Francisco. Minha luta é para que seja feito uma dragagem no rio, de forma preventiva, para não deixarmos acontecer uma situação de emergência, um colapso pela falta d'água" explicou o governador.

O lixo, de novo

O prefeito João Alves Filho realiza esta semana nova concorrência emergencial para a escolha da empresa que vai fazer o serviço de limpeza pública da cidade. Mais uma vez, a disputa deverá acontecer entre a Cavo (Grupo Estre Ambiental) e a Torre, que fazia a coleta de lixo até o início do ano, quando o prefeito resolveu encerrar o seu contrato.
A administração de João Alves prefere claramente a empresa que faz a coleta atualmente, tanto que na semana passada a direção da Emsurb divulgou nota fazendo acusações contra a Torre e a administração de Edvaldo Nogueira, com o nítido objetivo de fomentar a campanha eleitoral e tentar evitar a participação da Torre na concorrência emergencial.
Diz a nota: "A Empresa Municipal de Serviços Urbanos (Emsurb) comunicou via protocolo na última segunda-feira, 22, ao procurador Geral de Justiça (Rony Almeida) e ao Grupo de Combate à Improbidade Administrativa do Ministério Público Estadual, uma representação sobre possíveis irregularidades e ilegalidades nos contratos de coleta de lixo e limpeza urbana de Aracaju, de contratos firmados entre a Emsurb e a Torre Empreendimentos Rurais e Construção Ltda. (entre os anos de 2010 e 2016), assinados pela então presidente na época, Lucimara Dantas Passos. O documento também foi encaminhado para os órgãos de controle (Tribunal de Contas Estadual, Controladoria Geral do Município, Procuradoria Geral do Município e Secretaria da Fazenda)".
Todos esses contratos já foram auditados e aprovados pelos órgãos de controle, inclusive o MPE e TCE. O objetivo é nitidamente político e manifesta preferências dos atuais gestores da PMA.