Não é o rio de minha aldeia

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Publicada em 06/10/2016 às 11:08:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O recém lançado  'Voga' deveria navegar o São Francisco com as velas estufadas, vento em popa, caudaloso, imenso. Assim foi prometido. Mas o segundo disco da Coutto Orchestra afundou em naufrágio. Ao invés da correnteza arrastando tudo em um veio lírico, muita energia represada.
Toda escolha se resolve em suas consequências. Antes uma banda instrumental, a Coutto Orchestra teve a manha de não impor limites formais ao impulso da própria criação. Quando calhava, rolava um verso. Ao se decidir de uma vez por todas pela canção, no entanto, o quarteto se depara agora com as próprias competências. Não há na banda um único puto com a manha de um letrista apto, nem ninguém capaz de soltar a voz de verdade.
'Voga' se perde no meio do caminho, à deriva entre dois planos distintos. No que diz respeito à forma, segue investindo em um sentido universal, por assim dizer, da experiência vivida com os dois pés fincados na aldeia. A faixa 'Gnominado', entre os bons momentos do registro, por exemplo, tem a virtude de trabalhar as células rítmicas e a métrica própria da cultura popular nordestina por meio de códigos acessíveis em qualquer pedaço do mundo. Este sempre foi o grande trunfo do conjunto. É no campo do enunciado que 'Voga' se perde.
O discurso forjado em cima da pesquisa anunciada no início do projeto, quando a Coutto embarcou em uma viagem de 25 dias, percorrendo povoados ribeirinhos do São Francisco, no encalço de sonoridades, imagens e histórias que deveriam ganhar corpo em 'Voga', desaguou em versos constrangedores. As canções mencionam uma dor vaga, um tanto fantasiosa, encerrada na alegação do sentimento. Tormentas surgidas do nada, sem motivação aparente. Laços desfeitos ao acaso, por coisa nenhuma. Existencialismo poser. Piegas. É como se os músicos do conjunto nunca tivessem molhado os pés num rio de verdade.
A despeito de todas as virtudes (e convém mencionar que estas apontam sempre o passado da banda, um dado em si mesmo problemático), 'Voga' só pode ser localizado no espaço simbólico do não lugar. Definitivamente, o São Francisco da Coutto não corre pela minha aldeia.